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Crítica | Cursed – A Lenda do Lago, primeira temporada (Netflix)

Os fãs de fantasia desfrutarão dessa série baseada na Dama do Lago – mas ficarão decepcionados por ser uma história desnecessariamente complicada
Cursed
Katherine Langford é Nimue em Cursed CREDITO: Netflix

Os fãs de fantasia desfrutarão dessa série Cursed, baseada na Dama do Lago – mas ficarão decepcionados por ser uma história desnecessariamente complicada

Desde que a saga de Westeros da HBO terminou aos tropeços ano passado, todo fã ou não de fantasia anda otimista para quem será o novo mandatário do gênero na TV/Streaming. Muitos ainda estão em produção (como a adaptação da Amazon de A Roda do Tempo, de Robert Jordan), presumivelmente dando os retoques finais aos seus dragões CGI, mas, antes, já tivemos His Dark Materials, See e The Witcher. E nenhum chegou perto de replicar o corte cultural que GoT fez, principalmente para o gênero.

A netflix anda investindo pesado em séries de fantasia nos últimos anos, tanto que Cursed foi o lançamento de verão do serviço de streaming. Baseado na Graphic Novel do roteirista Tom Wheeler e pelo veterano dos quadrinhos Frank Miller, Cursed, é uma ambiciosa reimaginação em 10 capítulos da lenda arturiana, cheia de magia, folclore e batalhas. É o próximo GoT? A série não foi criada para concorrer com ninguém, mas é uma fatia de escapismo perfeitamente útil enquanto aguardamos o próximo candidato.

A história é contada através dos olhos de Nimue. papel da atriz Katherine Langford (13 Reasons Why), uma jovem com habilidades misteriosas que está destinada a se tornar a poderosa mas trágica Senhora do Lago.

Quando sua mãe, a sacerdotisa Lenore (Catherine Walker) faz um desejo a beira da morte, Nimue (pronuncia-se “Nim-way”) parte em uma missão para entregar uma espada antiga a Merlin (Gustaf Skarsgård) – “você sabe, o mago das histórias”. Séculos de idade, mas aparentemente sem idade, ele agora é um bêbado desonrado que perdeu seus poderes no fundo de uma garrafa de vinho.

Nimue em sua busca por Merlin, descobre o amor ao conhecer Arthur (Devon Terrell) e se torna, sem querer, um símbolo de resistência para o povo mágico Feeérico ou Povo das Fadas contra os cruzados Paladinos Vermelhos e seu cúmplice rei Uther Pendragon (Sebastian Armesto).

Depois de usar sua poderosa lâmina para dizimar um grupo de lobos que parecem ter saído dos portais do inferno, a fugitiva Nimue acaba ganhando o nome de “A Bruxa de Sangue de Lobo” e que por tabela, se torna a líder do povo da floresta que está sendo dizimado pela Igreja Romana. Como a mãe lhe disse: “Você não é uma garota frágil. Você é uma guerreira”.

Cursed
Devon Terrell é Arthur CREDITO: Netflix

O sempre vigoroso em cenas Peter Mullan acrescenta outro vilão ao seu extenso repertório, na forma do líder dos Paladinos Vermelhos, Padre Carden – um fanático genocida que tem a missão de exterminar todos os seres sobrenaturais em nome da religião. Com suas vestes vermelhas e barba branca, Mullan se parece com uma espécie de Papai Noel das trevas.

Inteligentemente, Cursed dá uma nova olhada feminista das lendas arturianas. Não apenas a famosa espada é manejada por Nimue, e não por Arthur, mas ela é apoiada por um grupo feminino de atrizes incríveis e personagens fortes.

A estrela em ascensão Shalom Brune-Franklin (Our Girl, 2013) brilha como Irmã Igraine, uma freira corajosa com seus próprios segredos. Emily Coates se arrasta pelos corredores como a sinistra órfã Irmã Iris, enquanto Polly Walker mastiga o cenário como a Rainha Mãe, o verdadeiro poder por trás do trono covarde de Uther – mesmo que ela esteja presa no alto de uma torre no castelo.

Cursed tem um elenco diversificado, mas funciona bem, especialmente em um drama com tantos clãs invasores e facções. Além disso, este é um drama de fantasia, não um documentário histórico.

Cursed
Peter Mullan é Father Carden CREDITO: Netflix

Game of Thrones foi fortemente criticado por ter tão poucos personagens negros, então Cursed oferece um corretivo bem-vindo nesta lacuna. Há até duas freiras lésbicas, apenas para fazer os tradicionalistas – machos nerds brancos – ficarem cuspindo fogo no Reddit. A série também coloca algumas reviravoltas inteligentes no material fértil da fonte.

A Netflix teve sucesso com séries de gêneros voltadas para um público juvenil (Stranger Things, Sex Education, Riverdale e 13 Reasons Why). E acho que Cursed procurou esse público especificamente. O que assisti foi uma história sobre maioridade cheia de angústia e temas familiares para o público do século XXI: ameaças feitas pelo homem ao mundo natural, terror religioso e principalmente racismo. Essas mensagens podem ser entregues empurradas as vezes, mas, pelo menos, lhe conferem o brilho da relevância contemporânea.

Uma armadilha com tais dramas épicos é que a narrativa frequentemente desaparece em sua própria toca de coelho, explico, algumas narrativas usadas no elenco ficaram confusos.

Somente na floresta, existem O Povo do Céu, o Clã da Cobra, Faunos, Chifrudos, Moonwings e os Leprosos do mundo subterrâneo. No mundo humano estão vikings, druidas, invasores rebeldes, contrabandistas, monges, freiras, espiões e cavaleiros. Sem contar os Senhores das Sombras, o Oculto, a Viúva sussurrante e a Deusa Aranha. Em algum momento do quinto episódio, você vai começar a apertar pause no controle e anotar os nomes dos personagens. Para complicar mais o meio de campo, alguém quebra a lealdade ou muda de bandeira. Ficou confuso.

Mesmo com essa confusão de personagens e seres mágicos, Cursed usa uma narrativa leve, a coisa não chega a ser um pesadelo shakespeariano. Peter Mullan recebe os discursos mais filosóficos sobre o certo e errado, em parte porque ele é capaz de apresentá-los de maneira mais convincente.

Cursed
Shalom Brune-Franklin é Irmã Ingraine CREDITO: Netflix

Felizmente, Katherine Langford continua excelente. Nimue, é como Buffy, a Caçadora de Vampiros, usando a espada da Xena: A Princesa Guerreira. Quando ela usa suas habilidades místicas, seu rosto fica coberto de uma espécie de hera verde, enquanto a terra e seus inimigos tremem. Seu romance com Arthur começa como um doce flerte proibido, mas, no final, as coisas começa a pegar fogo literalmente.

A tendência do diálogo em relação aos meios portentosos que Cursed oferece, lembra poesia medieval e isso funciona quando você amarra quase todas as pontas soltas. O alívio cômico tão necessário vem da atriz Lily Newmark como a melhor amiga de Nimue, Pym, e o jovem esquilo, Billy Jenkins, que fez o príncipe Charles criança na série The Crown.

Mesmo que pareça raso para alguns, Cursed é visualmente impressionante. Em termos de emoção, posui lutas com espadas, flechas voadoras e cercos de castelo. Um monge assassino ninja que chora (Daniel Sharman) que em batalha faz coreografias incríveis. Quem gosta desse gênero vai gostar disso tudo. Também há um bebê de três cabeças, chuva de sangue e um urso de CGI que não ficou legal. Há participações especiais de Boudicca e do Papa. Pelo menos uma vez por episódio, alguém fica com a cabeça ou as mãos decepadas.

Cursed entreterá os adolescentes e intrigará os entusiastas da fantasia, mas não é de alto nível o suficiente para convencer espectadores casuais. É inteligente, mas poderia ser um pouco mais. Se ele receber uma segunda temporada, precisará de um elenco mais credível e um roteiro mais profundo. A caneta da Netflix, afinal, é mais poderosa que a espada. Recomendo.

PikachuSama
Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.