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Nikolai Gógol E A Problemática d”O Nariz”

Você pode imaginar o transtorno que teria pela frente se acordasse sem seu nariz? E não estou falando de melindres biológicos vitais, como a necessidade de respirar aparentemente afetada. Não! Estou falando da própria identidade que carregamos ao notarmos um rosto no espelho todas as manhãs, harmoniosamente adornado em torno do… Nariz.

Às favas todo o resto, como olhos, boca, sobrancelhas… Como sobreviver sem o nariz? Como se apresentar diante das belas senhoritas, adoráveis moças à espera de um bom partido, sem o nariz para lhe dar confiança? Ou, pior, como chegar no trabalho, bater o ponto e dirigir-se ao chefe, interpelar por um aumento, sem a narina inspirando competência e produtividade???

Nikolai Gógol nos convida a rir e refletir sobre esse inusitado contratempo na breve novela “O Nariz”, que ganhou recente edição com o conhecido capricho da Antofágica. Gógol, precursor de gigantes como Dostoiévski e Tolstói, viveu a juventude no interior da imensidão russa antes de mudar-se para a então capital São Petersburgo, onde se estabeleceu e fez carreira literária. Essa trajetória particular lhe permitiu conhecer a fundo tanto a cultura popular, as histórias do campo, quanto a dinâmica das grandes cidades, as vaidades sociais e os emaranhados burocráticos do Estado russo.

Esse caldeirão de referências é trabalhado de modo exemplar aqui, pois o nosso protagonista, o assessor colegial Kovaliov, ao acordar certa manhã sem o órgão olfativo na face, desespera-se de imediato pelas implicações sociais e de carreira, antes mesmo de dar-se conta do absurdo de tal situação.

A maneira como o fenômeno é tratado por todos os envolvidos – a partir do momento em que o barbeiro de Kovaliov encontra o famigerado nariz dentro do pão (!!) durante o café da manhã e pensa somente em livrar-se do “inconveniente” antes que o acusem de responsável por separá-lo de Kovaliov – demonstra que o tom da obra, de escárnio e fino humor, busca explorar os desdobramentos do fato e as ações do gênero humano, e não apenas focar no fantástico que um nariz com vida própria representa.

Tendo como cenário uma Petersburgo familiar, com leve espírito provinciano de sucessivos encontros casuais e percursos encurtados pela ansiedade do protagonista em conciliar-se com sua venta, a obra mostra o quão longe podemos ir quando nos desprendemos de nós mesmos; ainda que, neste ponto, caiba ao nariz uma fulminante ascensão social.

Mas como foi possível? Ora, “incidentes semelhantes acontecem no mundo” o tempo todo, ainda que “não se saiba rigorosamente nada” sobre as causas. Resta então, apreciar a prosa loquaz de Gógol, abraçar a miséria de seus tipos e rir do nariz que mobilizou toda a capital russa.

A edição da Antofágica, como de praxe, apresenta acabamento de luxo em capa dura, com belas ilustrações de Nicholas Steinmetz e posfácios saborosos de Raquel Toledo e Inti Queiroz, versadas na literatura russa como poucas. A tradução é de Lucas Simone.

O Nariz, de Nikolai Gógol
Editora Antofágica
R$ 49,90
160 páginas
Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br