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“O Jogo de Amor – ‘Ódio'”: Lucy Hale Brilha Em Comédia Romântica Situada no Trabalho

Lucy Hutton trava uma espécie de “guerra fria” no trabalho. Seu novo colega de departamento, Joshua Templeman, além de metódico e perfeccionista, desperta toda sorte de irritação ao imitar seus gestos ou observá-la de modo quase inconveniente. Como se não bastasse, Joshua tem se destacado ao cair nas graças do chefe, um machista da pior espécie. E se a animosidade entre ambos já é alta, a disputa que travarão por um novo posto aberto promete abalar o ambiente. Ou tanto incômodo com o outro não esconderia sentimentos oblíquos?

 

“O Jogo de Amor – ‘Ódio'” (“The Hating Game” no original) adapta a obra de Sally Thorne como a típica comédia romântica que transforma o local de trabalho em palco para uma disputa de gênero pautada em discursos já ultrapassados e estereótipos claudicantes, mas que perdura como modelo por sempre atrair público. De algum modo, as pessoas se interessam por narrativas calcadas no ódio como caminho do amor. Ao menos desta vez, não é preciso muito esforço para antipatizar com Austin Stonwell, intérprete de Joshua. Seu papel anódino é fundamentado ao longo da película com a subtrama do pobre garoto rico, rejeitado pelo pai mesmo com todos os esforços, e preterido pelo irmão médico e bem sucedido.

Já Lucy Hutton cai como uma luva para Lucy Hale, com seus olhos expressivos e o perfil petite charmant, mignon, acentuado pelo figurino de bourgeois travailleur, de quem veio do interior mas com instrução, alcançando o emprego dos sonhos numa editora e que agora se sente ameaçada pelo macho dominante heteronormativo. Seu gosto pelos Smurfs dá o toque de ouro nessa concepção, ganhando ares inusitados como a passagem onde se inspira em Tolstói ao escrever suas fanfics sobre os serezinhos azuis.

Mas sejamos francos: sem sua graça em cena, a maneira quase involuntária com que baixa a guarda cedo demais, dando início aos famigerados “jogos” de atração e competitividade com seu nêmesis, o filme teria pouco fôlego. Sua expressividade é justamente o oposto do que Stonwell transmite. Os muitos centímetros que os afastam não são apenas uma questão de estatura. É um distanciamento simbólico, metafísico, remediado pela afeição que nasce das diferenças.

O filme, inédito nos cinemas brasileiros, foi disponibilizado recentemente no serviço Prime Vídeo da Amazon.

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br