Segunda, 09 De Julho De 2018

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Resenha | O Vilarejo (Raphael Montes)

Quando uma antologia de contos consegue te fazer prender a respiração e estremecer sem ajuda de fantasmas, monstros e outras criaturas do além, devemos parar para enaltecê-la. Esse é o caso de O Vilarejo, do brasileiro Raphael Montes.


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           O Vilarejo é um lugar isolado, desolado por uma guerra civil e assolado por um inverno rigoroso. Com a escassez de alimentos devido à neve e o medo das barbaridades e consequências da guerra, a atmosfera é de uma tensão crescente, transformando o pequeno local em um lugar onde ninguém gostaria de morar. Entretanto, a cada passar de página, descobrimos que não é só por isso que este Vilarejo é um lugar inóspito.

¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ‚ÄúO vilarejo vem sendo dizimado a cada dia. As mortes s√£o frequentes e o luto se sentou √† mesa. Ningu√©m chora os mortos. N√£o podem desperdi√ßar energia lamentando a partida dos que n√£o suportaram o frio e a fome.‚ÄĚ

¬† ¬† ¬† ¬† ¬† O livro tem sete cap√≠tulos, no qual cada uma leva o nome de um dos sete reis do inferno que, por sua vez, originaram cada qual um dos sete pecados capitais. Ent√£o, vemos personagens dominados pela Gula (Belzebu), Gan√Ęncia (Mammon), Lux√ļria (Asmodeus), Ira (Sat√£), Inveja (Leviathan), Pregui√ßa (Belphegor) ou Orgulho (L√ļcifer) e como esses sentimentos podem dominar uma pessoa, destruindo todo o seu senso de civilidade e humanidade.

¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬†A obra √© escrita no estilo fix up, no qual os cap√≠tulos que comp√Ķe a obra pode ser lido separadamente, sem preju√≠zo algum para o entendimento, por√©m, se conectam em algum ponto, formando, assim, um romance. No caso desta obra, a conex√£o est√° no pr√≥prio vilarejo onde as hist√≥rias ocorrem. Desta forma, os cap√≠tulos se passam cada um em um n√ļcleo, numa determinada casa do vilarejo, por√©m, as hist√≥rias eventualmente citam algum personagem de outros cap√≠tulos e assim se entrela√ßam. Como as situa√ß√Ķes s√£o criativas e o enredo bem escrito, por mais que voc√™ consiga prever o que pode acontecer algumas vezes, a descri√ß√£o consegue te pegar de maneira extremamente eficiente.

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          Eu preferi fazer a leitura sequencial da obra para melhorar a imersão na atmosfera do lugarejo e tentar pegar o máximo de detalhes possíveis. Não me arrependi da minha escolha e tenho certeza que a leitura foi bem mais proveitosa assim, pois, tendo as histórias bem vivas na mente você consegue construir (e desconstruir) a visão dos personagens ao longo da leitura.

¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬†Assim como em ‚ÄúEscurid√£o Total Sem Estrelas‚ÄĚ, o que mais assusta aqui √© ver como o ser humano consegue ser mesquinho, vil e odioso. Em hist√≥rias relativamente simples, o autor consegue trazer caracter√≠sticas complexas da natureza humana, que s√£o, muitas vezes, potencializadas em tempos de crise. O que, a primeira vista, √© um lugarejo onde todos se conhecem e t√™m uma conviv√™ncia harmoniosa pode ser, na verdade, um lugar onde a podrid√£o da humanidade est√° enraizada profundamente.

      Um recurso interessante aplicado na obra é o prefácio escrito numa espécie de metalinguagem, no qual o autor conta como supostamente entrou em contato com as histórias narradas no livro, se afirmando como simplesmente um tradutor dos ocorridos no O Vilarejo. Tanto o prefácio quanto o posfácio são inteiramente construídos com essa ideia, o que é um grande mérito do autor na construção da aura misteriosa e macabra do livro.

¬† ¬† ¬† ¬† A escrita de Raphael Montes √© bem direta e flu√≠da, entregando cap√≠tulos curtinhos e um livro de 96 p√°ginas. A falta de descri√ß√£o, que poderia ser um problema para alguns leitores de suspense/ terror, acaba sendo algo que encaixa muito bem na proposta da obra, pois, j√° no pref√°cio Raphael nos conta como a √ļnica ajuda conseguida para traduzir os escritos de uma l√≠ngua (morta) original para o portugu√™s, foi um velho dicion√°rio. Embora seja um livro que pode ser lido de uma vez, acredito que voc√™ pode precisar de uns intervalos para respirar. Muitas cenas s√£o viscerais e a narrativa √© bem direta, mesmo abordando temas delicados como canibalismo e pedofilia.

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¬† ¬† ¬† ¬† Foi o primeiro livro do autor que li e o conjunto da obra me impressionou bastante, tanto com a criatividade das hist√≥rias quanto a condu√ß√£o da narrativa. Sem d√ļvidas, √© um autor que manterei no meu radar e procurarei mais obras.

¬† ¬† ¬† ¬† ¬†O livro foi lan√ßado pela editora Suma de Letras e tem uma edi√ß√£o muito bonita, com trabalho de capa e diagrama√ß√£o lind√≠ssimas. Al√©m disso, conta com 14 grandes ilustra√ß√Ķes do artista Marcelo Damm (que ilustram este post), que retratam algum ponto da narrativa e te ajudam a construir a imagem horrenda ali descrita.

¬† ¬† ¬†Raphael Montes ser√° um dos convidados do SALIPI deste ano (2018), se fazendo presente na segunda-feira, dia 04/06/2018, com uma palestra intitulada ‚ÄúCrime, Verdade e Fic√ß√£o‚ÄĚ, ent√£o, se voc√™ √© de Teresina, esta ser√° uma grande oportunidade para comprar o livro, pegar o aut√≥grafo e prestigiar um autor nacional deste g√™nero ainda pouco prestigiado.

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