Quarta, 19 De Dezembro De 2018

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Sobre Pais e Filhos: Sugestões de Leitura

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra

Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas

Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência

E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste.

 

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas

Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.

Vinicius de Moraes

 

Abro o texto com essa bela poesia de Vinicius para homenagear o dia de hoje, em que se celebra a figura e a pessoa do pai. Uma data carregada de sentimentos – e de sentidos. Bom o homem que se entrega a eles; bom o homem que encontra, também, espelho para suas emoções na boa literatura. Pensei, aproveitando a ocasião, em elaborar uma singela lista com três sugestões de obras que abordam a relação entre pais e filhos. Cada uma com um viés diferente, mas todas em comum transmitindo com palavras a força e a importância desse vínculo, que nos marca profundamente, de um jeito ou de outro: relações tumultuadas, amorosas; ou mesmo de ausência.

Pressinto cair no óbvio na seleção dos títulos. Mas nunca bastará falarmos de livros decentes, que merecem ser lidos ou relidos e levados para sempre no coração. Vamos à lista:

Patrimônio, de Philip Roth: Neste livro de 1991, Roth revisita os altos e baixos da relação com seu pai, que aos 86 anos descobre uma doença grave. O escritor decide acompanhá-lo diariamente e nesse processo conversam sobre o passado, se conhecem melhor e passam a limpo toda uma história de vida. Com episódios tocantes, mesmo um acontecimento que poderia ser escatológico vira um ponto de inflexão sobre a herança que os pais legam aos filhos.

Carta ao Pai, de Franz Kafka: É uma peça fascinante na obra do escritor tcheco. Dificilmente algum filho pôde escrever ao pai carta mais pungente do que esta. Nela o grande escritor realiza um ajuste de contas memorável com o tirano familiar Hermann Kafka. O móvel do confronto é uma tentativa de casamento do filho que o pai desaprova, mas o texto abrange toda a relação entre ambos, num ritmo dolorosamente ágil. Como sempre, a capacidade de análise e argumentação do escritor surpreende. Aqui ela transforma uma carta em documento perene da literatura universal.

O Filho Eterno, de Cristovão Tezza: Publicado em 2007, é um livro com traços autobiográficos que exibe o relacionamento de um pai com seu filho, portador da Síndrome de Down, cujas limitações e deficiências são expostas com clareza.

O texto também revela os sentimentos “mesquinhos” do alter ego do autor. Conduzido pelo ressentimento e a vergonha, ele até mesmo tenta se consolar, fantasiando a morte do recém-nascido. Como afirma Tezza: “um pai que nada mais é do que a versão exacerbada de mim mesmo”.

 

Encerro voltando a Vinicius, com sua crônica onde reflete de forma pujante sobre a relação com seu pai: Nos entendíamos e amávamos mudamente, meu pai e eu. Talvez pelo fato de sua figura emocionar-me tanto, evitei sempre pisar com ele o terreno das coisas emocionais, pois estou certo de que, se começássemos a falar, cairíamos os dois em pranto, tão grandes eram em nós os motivos para chorar: tudo o que podia ter sido e que não foi; tudo o que gostaríamos de dar um ao outro, e aos que nos eram mais caros, e não podíamos. (O texto pode ser lido na íntegra clicando aqui.)

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