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Brega Story apresenta dramas sociais na história da música paraense

Música, romance, violência e muitas outras coisas estão presentes em Brega Story

A impressão mais marcante que se fixa no pensamento de conclui a leitura de “Brega Story”, (Brasa), de Gidalti Jr, premiada com o troféu de Melhor Álbum no CCXP Awards 2022, é que o autor produziu uma biografia de um músico que viveu em Belém (PA) por volta do fim da década de 1990 e do início dos anos 2000, quando o estilo tecnobrega ganha força e incorpora novos elementos.

Esse sentimento se dá, na verdade, não por que o protagonista WanderSom Jr tenha existido ou mesmo por se basear diretamente na vida de algum artista daquela região, mas, segundo conta o próprio autor, por ter sido inspirado em várias referências, tanto de comportamentos de pessoas, de forma genérica, quanto de pessoas específicas. “E, obviamente, ele é uma paródia de vários músicos e cantores de brega da nossa região e do Brasil; além de questões psicológicas, que é algo mais abstrato. É uma grande mistura a composição desse personagem”, explica Gidalti Jr.

Brega Story foi escolhido o melhor álbum de 2022 pelos jurados do CCXP Awards

O artista nasceu em Minas Gerais, vive hoje em São Paulo, mas passou a maior da sua vida em Belém, daí o motivo de conhecer bem essa realidade e o desejo e provocação por construir uma história a partir desse tema. Mas para concluir essa missão, Gidalti realizou um amplo trabalho de pesquisa, principalmente para obter detalhes que nem sempre estavam à vista de todos.

O resultado da união de todos esses fatores, ou seja, conhecimento e vínculo com a região, com atividades de pesquisa, aliado ao talento do artista, resultaram em uma história tão envolvente e bem contada que as 316 páginas da história em quadrinhos passam bem rápido.

Também contribui para que envolvimento com a história aconteça de forma tão firme o estilo artístico de Gidalti Jr.  Para algumas pessoas, principalmente os mais acostumados a traços mais conservadores, pode até causar certa estranheza de início, logo fica muito claro que nada é feito à toa. A escolha por começar com quatro páginas coloridas “abre as portas” para os leitores de forma emocional e carinhosa. Outro claro exemplo é uma “explosão de som” representada uma “chuva” de traços pela página.

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Fundamental também são os temas sociais colocados na história. Brega Story mostra a vida de WanderSom Jr, um músico experiente que se intitula o “Rei do Brega” e que insiste em resistir às mudanças trazidas pela modernidade. Sofre ao ser enganado por políticos corruptos, sofre ao querer conquistar o sucesso de qualquer jeito e ao ver outros estilos ganhando mais atenção do público. Mas o personagem também tem defeitos destacados na trama.

Brega Story aborda temas como violência, preconceitos, abusos e exploração sexual e até religião, neste último caso como uma condição mais satírica do que de defesa de algum segmento ou recomendação de “caminho a seguir”. “Mas obviamente por se tratar de religião estamos expostos a críticas e polêmicas. O caráter irônico e satírico torna a obra mais interessante, é uma figura de linguagem que eu gosto muito de trabalhar, mas cada um faça a sua interpretação do jeito que quiser”, disse.

Gidalti Jr é desenhista, pintor, professor e publicitário

 

O autor e suas obras

Gidalti Jr. é um publicitário, professor de artes, pintor e desenhista. É formado em publicidade e propaganda pela Universidade da Amazônia (UNAMA), bem como em artes plásticas pela Universidade Federal do Pará (UFPA), onde também fez Mestrado em Artes. Sua primeira história em quadrinhos – “Castanha do Pará”, baseado na obra “Adolescendo Solar”, de Luizan Pinheiro, também foi premiada. Por esse trabalho, o artista recebeu em 2017 o Prêmio Jabuti, em primeiro lugar na categoria Histórias em Quadrinhos.

Sua primeira HQ, Castanha do Pará, recebeu o Prêmio Jabuti

Mesmo ainda não podendo dar nenhum detalhe, Gidalti Jr confirmou que está trabalhando na sua próxima HQ, viajando, fazendo pesquisas, entre outras coisas. Para o artista, ter sido premiado com suas primeiras histórias em quadrinhos não deixa de exercer uma certa pressão na produção da terceira obra, mas nada capaz de provocar alguma obrigação ou mudança na sua maneira de agir e trabalhar. “Eu procuro relativizar isso e tento produzir as minhas obras com uma desconexão dessas pressões sociais, seja de público, seja de premiações. Procuro me manter focado, me divertir no processo. O meu parâmetro é o que me guia. Gosto muito de trazer consistência no meu trabalho na parte de roteiro e na parte gráfica. Acho que sou meu maior algoz neste sentido”, concluiu.

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Jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí com mais de 20 anos de atuação na área, sempre com destaque para área cultural, principalmente no campo das histórias em quadrinhos, cinema e séries.