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Crítica | O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder é o triunfo torto da história do entretenimento

Resenha crítica da mega série da Amazon O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, contém spoiler, mas vale a leitura!

Amazon Original Série: Os Senhor dos Anéis - Os Anéis de Poder
Amazon Prime

Resenha crítica da mega série da Amazon O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, contém spoiler, mas vale a leitura!

 

Desde 2017, quando a Amazon anunciou que tinha comprado os direitos de produzir uma série baseada no universo de O Senhor dos Anéis, eu estava esperando por esse momento. Cinco anos de espera, cinco anos escrevendo, traduzindo e explicando momentos e personagens importantes que a produção poderia ou não usar em sua primeira temporada. Acertei algumas coisas, errei a maioria, fui criticado, quase cortaram minha cabeça, mas também recebi leitores das obras de J.R.R. Tolkien entusiasmados com o que a Amazon estaria fazendo com o universo fantástico que, para alguns, é quase uma religião. 

Depois de tanto ódio gratuito, principalmente racistas e misóginos, finalmente assistimos a primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, espero não cansar vocês demais, mas o texto será um pouco longo porque tem muita coisa para ser dita sobre a série, sobre os fãs e sobre a internet.

Demorei com esse texto por causa dos envolvimentos históricos eleitorais que o Brasil estava vivendo nas últimas semanas, entrei numa crise terrível de ansiedade e fiquei sem capacidades psicológicas de escrever qualquer coisa. No final, a democracia venceu e nos próximos quatro anos não teremos um fascista como Presidente.

A internet é maligna 

Esse tema foi tão assustador e sério, coisa que não deveria ser, que a própria Amazon suspendeu as resenhas de notas dentro de sua plataforma quando descobriu que existia “uma agenda política” de criticar a escolha do elenco com atores negros e a forma como a história se concentrava em mulheres como protagonistas em O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder. O fascismo online é uma realidade e eles sabem utilizar a mídia de massa aproveitando produções culturais de grande impacto como é o caso de Os Anéis de Poder para reagirem negativamente. Se você ainda não havia lido ou nunca tenha ouvido falar sobre fascismo online, conheça o trabalho dos pesquisadores de literatura Craig Franson e Dani Holtz que fazem um ótimo podcast sobre a guerra cultural neofascista no universo de Tolkien (American Id).

Como fã e pesquisador não apenas de Tolkien, mas da literatura fantástica, encorajo todos os leitores e novos fãs da série a discutir e compreender como esse mal que é real está mais vivo que nunca. Desde janeiro, quando anunciaram o elenco principalmente de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, pessoas se passando por fãs, em sua maioria, vem bombardeando a série. 

Antes mesmo do lançamento dos dois primeiros episódios, já explodia nas redes sociais que a adaptação estava ruim, que o universo ficcional de Tolkien estava completamente errado. No seu livro “A Theory of Adaptation”, a pesquisadora Linda Hutcheon fala que “..não existe uma adaptação fiel, já que toda adaptação, por natureza, é uma releitura de sua história original. Mas o ‘fandom’ simplesmente pegou o universo de Tolkien e passou a monetizá-lo como se fosse seu. Mas por que eles fizeram isso? Simples, no universo de Tolkien a maioria das sociedades são dominadas por homens brancos. E isso já foi provado diversas vezes que é um dos piores e mais débeis erros que essas pessoas criaram. Existe um incrível texto da professora de literatura inglesa Anna Smol que explica isso que eu vou traduzir um pedaço abaixo:

“O propósito de uma adaptação pode ser homenagear a fonte ou criticá-la, mas de qualquer forma ela dirá algo novo como uma releitura de uma história.

Produzir uma adaptação em um novo meio, como uma série de TV, requer uma maneira diferente de contar uma história em comparação com uma versão impressa.”

Como a Amazon só podia adaptar sua obra baseando apenas nos textos dos Apêndices do livro  O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, “muito de Os Anéis de Poder precisou ser inventado. Com a aprovação do espólio (família) de Tolkien.Nesses apêndices, Tolkien apenas esboçou brevemente o que aconteceu na Terra-média antes dos eventos narrados em O Senhor dos Anéis.” completa a professora. Coloquem na cabeça, mesmo que a série não tenha sido de seu agrado, é uma adaptação, a séria nunca conseguirá ou precisa ser igual a sua obra original.

O fascismo online sabe que está errado, mas continuará com essa interpretação e reação,  já que a ideia deles é prejudicar a série, enganar as pessoas, enfraquecer o diálogo democrático e aumentar a cultura racista e misógina. É um dever nosso, fãs de Tolkien, fãs da série ou dos filmes não deixar a coisa crescer mais do que já está.

A maldade da internet existe e ela prejudica tudo e todes.

Mas a série é ótima

Quando se fala de Tolkien devemos sempre lembrar o quando ele mantinha como um dogma a imortalidade élfica e seu sistema mágico. É verdade que os personagens são o que tornam uma história narrativamente poderosa – mas a magia é uma grande parte do que torna o gênero de fantasia distinto. Mas o autor também, apesar de ser um dos grandes difusores ao criar e usar sistemas mágicos na literatura, se importava mais como o leitor acompanha sua história do que explicar como funcionava e como seus personagens usavam o conceito “magia’, porém, ao mesmo tempo, ele consegue nos dizer o seguinte: o mundo é vasto demais para tentar explicar a leis mágicas que regem o universo.

Muitas das críticas que andei lendo da primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder pegam pesado o quanto os criadores da série (Patrick McKay e John D. Payne) não explicaram direito o quanto mágico a série consegue ser. Mágico no conceito de como eles venderam a série como um divisor de água e mágico no conceito de como a série manteve o universo de Tolkien viva no coração e mente dos novos e antigos fãs da Terra-média.

Esses motivos eu deixo para os especialistas, estou aqui como fã e  simplesmente acreditei que tudo que assisti foi real, grandioso e tocante. Li O Senhor dos Anéis antes dos filmes, na verdade, li primeiro O Hobbit (uma xerox) e o livro me tocou tanto que terminei ele em menos de 24 horas. Quando fui para a trilogia, me senti mais apaixonado por esse universo, pelos seus personagens e como salvar o mundo das trevas é melancólico e quase solitário. Pouco tempo depois, já tinha lido Contos Inacabados e o Silmarillion e o foi esse último que realmente me fez entender o quanto Tolkien era um homem diferente, criativo e que talvez não surgiria outro autor igual nos próximos séculos.

Imaginar os acontecimentos das Primeiras Eras do universo criado por Tolkien era tão impossível para mim, mesmo já existindo a trilogia no cinema, já havia cogitado entre amigos o que poderia dá certo, mas imaginar como seria a série da Amazon baseado apenas no que se lia no livro e pesquisas de professores de literatura, nunca teria me dado o que recebi assistindo a primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder. 

Claro que a Amazon esperava mais respostas positivas da série. Foi a produção mais cara da história da empresa e da indústria. Eles têm um plano de cinco temporadas com o mesmo elenco para a Segunda Era, apostaram muito alto, a série ainda é um produto e precisam vendê-la. Mas calma, Amazon que vocês tem bastante tempo para isso.

O que não precisa ser dito sobre a série. Efeitos visuais, maquiagem, figurino, produção, edição e música. Basicamente são as mesmas pessoas que fizeram as trilogias. Vou focar na história e na forma como os criadores da série contaram ela. 

O que precisa ser dito negativo da série é simplesmente a devastação ambiental que a produção causou nos locais que eles utilizaram para gravar a série, segundo artigo escrito pelo do The Guardian.

A crítica mais comum que existe sobre O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder é que ela é pretensiosa demais, porém muito lenta e chata. Estudiosos e pesquisadores de Tolkien se deleitavam com os detalhes e referências em todos os episódios, mas para os fãs que consumiram o lore de Tolkien apenas pelos filmes, a série deixou muita coisa a desejar. Talvez era a ideia original dos criadores da série, contar  a Segunda Era num ritmo que desse para abraçar as diversas raças e a Terra-média. O próprio Jeff Bezzos (dono da Amazon) esteve envolvido na compra dos direitos  de propriedade do Universo de Tolkien, foi uma aposta alta, mas só o tempo dirá se foi sucesso ou não.

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Mas de fato o que tratou a primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder? É uma resposta simples: a natureza de quem é o Estranho (Daniel Weyman) e onde estava Sauron, o cara que dá nome a série, já que estamos falando da personificação do sistema mágico que Tolkien criou e seu mundo fantástico. The Dweller (Birdie Sisson), The Nomad (Edith Poor), The Ascetic (Kali Kopae), as três figuras místicas  de branco que carregaram artefatos mágicos pela Terra-média procurando seu mestre, acabou induzindo a maioria a erro, já que elas chegaram a cratera que se formou após a queda do Estranho. Ora, se elas parecem sombrias e suspeitas, é claro que o Estranho era Sauron! Mas na realidade, elas são as últimas remanescentes de espíritos menores leais a Sombra, o mais próximo do que se pode definir a natureza delas é que fazem parte de um culto secreto a Morgoth, que após sua queda, estavam esperando a ascensão do novo mestre das trevas.

Mas no final, Sauron já estava agindo, disfarçado de homem do sul Halbrand (Charlie Vickers). No entanto, os dois personagens ainda parecem conectados, pois as místicas perceberam – para seus horrores – que encontraram um Istar. No episódio final, o Estranho revela a Nori (Markella Kavenagh) que a palavra significa “sábio” ou “mago”. É uma palavra tipicamente reservada para os Cinco Magos enviados à Terra-média para ajudar os Povos Livres a se organizarem contra Sauron em conflitos posteriores e a Guerra do Anel na Terceira Era. Mas isso não significa que eles já não tenham vindo antes.

O Estranho por causa da queda – o cara veio voando numa bola de fogo para a Terra-média –  ainda não lembra muito qual é sua real função ou poderes, meio que ele trincou como vidro quando caiu do céu e isso também justifica as teorias para as próximas temporadas sobre de fato quem ele é. Pelo menos, sabemos que a Luz brilhou. Mas a aparente clareza de propósito de Sauron significa que ele está pronto para usar mentiras e verdades para alcançar seus objetivos. Ele enganou Galadriel (Morfydd Clark) a temporada inteira. Muita gente acredita que ele estava de fato arrependido quando seu mestre caiu e a Terra-média serviria para expiar seus pecados, mas eu não acredito nisso, Sauron é Mal, Morgoth não precisou corrompe-lo para mudar de lado, simplesmente foi uma sua decisão abraçar as trevas para seus propósitos.Mas a série e o Sauron de Charlie Vickers deixou isso em aberto. Os criadores da série até tentaram criar um laço afetivo dele com Galadriel e porquê não?

Ainda falando do Estranho, acredito que ela seja o Maia Ossë, servo do Vala Ulmo, o Senhor das Águas. Morgoth tentou seduzi-lo nos primeiros dias do mundo e Ossë quase se corrompeu, Tolkien, quando conta a história de Ossë, ele estava falando que a natureza dos Maiar é fraca, quase humana. Talvez por isso que as místicas confundiram o Estranho com Sauron? O que eu entendo sobre os Maiar é essa eterna luta de ficarem abaixo dos Valar e acima dos Elfos, vivendo um caminho incerto entre o bem e o mal. Mesmo dando indícios que ele seja Gandalf, eu apostaria em Ossë.

Sauron é um Maia e isso eu expliquei muito bem nesse texto. Então não preciso explicar de novo aqui, leia e compreenda.

Os Protagonistas

Amazon
O Senhor dos Anéis – Os Anéis de Poder (Amazon)

Falarei de modo mais objetivo agora, se não texto fica enorme. Além disso, existem milhares de vídeos e resenhas sobre eles, mas no futuro, vou escrever mais sobre cada um e os segredos que a série deixou para quem teve mais tempo para analisar e que serão fundamentais para o futuro de todos nas próximas temporadas.

A primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder narra os acontecimentos da Segunda Era da Terra-média em cinco núcleos principais: os Elfos de Eregion, Anãos de Moria, Os humanos do Sul, Os Pés-Peludos e os Numenorianos. Mas a grande protagonista da série é a Galadriel, interpretada bravamente pela atriz Morfydd Clark. 

Morfydd Clark não tem qualquer problema em andar de cavalo, nadar em águas gélidas e profundas, empunhar espadas, cortar cabeças, além de ser elegante, belíssima e entregar um papel que mudará para sempre a carreira no cinema e TV. Precisava ser ela e ponto final no papel de Galadriel.

Galadriel como personagem principal da primeira temporada foi uma aposta assertiva, mesmo com os ataques que ela sofreu. Em seus quase 16 mil anos lutando com as trevas, seria impossível escolher qualquer outro personagem que Tolkien tenha criado para ser a grande estrela da primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder. Foi como finalmente vislumbrar quem Galadriel realmente é, dá uma visão totalmente nova da personagem. Menos divina e mais ativa. Vê-la sem seu anel de poder é algo incrivelmente intrigante. Galadriel é essencialmente uma guerreira feroz ao longo desta primeira temporada, com um objetivo em mente: caçar Sauron e impedir que a escuridão se espalhe pela Terra-média. Ela sempre acreditou que as trevas não haviam desaparecido, que o inimigo do mundo não havia sido derrotado, mesmo que Sauron (Halbrand) tenha enganado ela pelos seis primeiros episódios de oito da primeira temporada.

Galadriel também foi fundamental para a inclusão de Númenor na série. Foi emocionante assistir a Ilha Estrela, a produção fez um trabalho fantástico ao exibir Númenor como um belo reino insular com paisagens e cultura ricas. Também havia algo interessante sobre Galadriel e Halbrand em Númenor como forasteiros e o conflito que se seguiu por causa da chegada dos dois e o futuro dos povos livres da Terra-média. Enquanto o tempo de Galadriel em Númenor nos deu uma visão mais fundamentada da personagem, no episódio seis ela voltou a ser essa elfa divina liderando o exército Númenoriano na batalha nas Terras do Sul.

Na Ilha Estrela, fomos apresentados a um jovem Isildur (Maxim Baldry), muito antes da grande tragédia que se abaterá sobre ele. A crescente relação entre ele e seu pai Elendil (Lloyd Owen) é um destaque da temporada, algo que tenho certeza que continuará nas próximas temporadas. Os criadores da série tentaram explicar Númenor politicamente algo parecido com o Império Romano. Míriel, ou Tar-Míriel, conforme os escritos de Tolkien, a última herdeira legítima de Númenor.Filha de Tar-Palantir, o vigésimo quarto Rei da Ilha Estrela. Míriel substitui o pai no trono (Governante interina) depois que ele foi exilado por se manter fiel aos Elfos. O papel foi dado à atriz Cynthia Addai-Robinson que faz uma Míriel esplêndida, poderosa e digna. A decisão dela de ajudar Galadriel acaba reverberando nos acontecimentos dos Númenorianos que estavam a gerações sem lutar ou saber qualquer coisa sobre Orcs e as trevas. Destaque também para Pharazôn feito pelo ator Trystan Gravelle que num futuro próximo dará um trabalho sem precedentes para o futuro de todas as raças e povos livres da Terra-média.

Também conhecemos um jovem Elrond amigo íntimo dos Anãos e sua viagem e hospedagem a gloriosa Khazad-Dum, sua amizade com com o príncipe Durin (Owain Arthur) é cativante e um dos pontos altos da série também, mostrando o quão cedo a aliança entre elfos e anões começou. Assistir  Khazad-Dum, em uma época em que o reino dos Anãos estava no auge foi incrível e emocionante. Em A Sociedade do Anel, assistimos e lemos uma Khazad-Dum abandonada, cheia de Orques e um Balrog escondido dentro dela. Ele até aparece no final da temporada novamente.

O plot narrativo criado para  príncipe Durin pode ser uma das histórias mais fortes até agora. O conflito interno entre sua lealdade aos anãos e salvar os elfos lentamente o destrói ao longo da temporada. Tudo vem à tona no final, quando Durin vai contra os desejos de seu pai e ajuda a fornecer a Elrond e os elfos Mithril, o minério mágico que poderia salvar a raça élfica. Com isso ele acaba perdendo a herança e talvez até o reino escondido, mas isso a gente só vai ficar sabendo no futuro próximo. Além de Durin, vale muito a pena falar do papel da Princesa Disa (Sophia Nomvete) e sua esposa, uma sacerdotisa que conversa cantando com a rocha e assim descobre onde existia veios de minerais valiosos para os anãos. Seu amor pela sua família e Elrond é fundamental para compreendermos melhor o lado feminino da raça que pouco é falado por Tolkien em seus livros e cartas.

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Chegamos a Arondir (Ismael Cruz Córdova), Bronwyn (Nazanin Boniadi), Theo (Tyroe Muhafidin) e o resto dos Povos do Sul. Já era sabido que eles seriam os remanescentes humanos que adoravam a sombra e que lá seria Mordor, eu acho que até escrevi em algum lugar isso. Muitas críticas falam que foi o núcleo mais fraco da série. Mas acredito que seja o contrário, Arondir é carismático e após o final do segundo  episódio, ficou claro que seu arco giraria em torno dos orques invadindo as Terras do Sul. 

Além da história amplamente abrangente de Homens contra Orques, a história de Arondir e seu papel como protetor das Terras do Sul foi tudo uma novidade, isso é totalmente criado pelos roteiristas da série.Seu enredo romântico com Bronwyn foi perfeitamente equilibrado com o resto de seu arco, nem muito nem pouco. E o papel de cada um ainda não acabou.

Bronwyn foi uma mulher forte na primeira temporada, uma das mais inesperadas. Os roteiristas fizeram um belo trabalho com ela, nunca desistiu do seu povo, ao mesmo tempo que acaba se tornando uma líder nata contra as forças das trevas. Afinal, toda a história da Terra-média são os humanos consertando e salvando o mundo das cagadas que os Elfos fizeram. Na vida real, Nazanin Boniadi é um ativista que luta pela libertação da Palestina, então seu papel ganhou ainda mais importância para mim. Já Theo teve um papel bem genérico, sejamos sinceros.

O plot principal no quesito cenas de ação e efeitos visuais, foi sem dúvidas a convergência dos humanos das Terras do Sul sendo amparados pelos Númenorianos na brilhante batalha do episódio seis. Ver Galadriel e o exército Numenoriano atacarem para salvar Arondir e os homens fizeram as lágrimas descerem, é lindo, muito profundo, muito mesmo. O episódio seis foi de ponta a ponta uma obra prima, pois testemunhamos essencialmente o nascimento de Mordor através da erupção do Monte da Perdição. Aço puro.

De todos os relacionamentos que a primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, o mais saudável foi o que o Estranho teve com Eleanor “Nori” Brandyfoot. Nori encontra um Estranho sem saber o que é, sem saber usar linguagem, comer ou mesmo entender seu papel naquele novo mundo. O vínculo dos dois, humaniza o Estranho e cria laços com a raça que seria em algumas centenas de anos, os pais dos Hobbits. O Estranho e sua amizade com os Pés-Peludos serve como espelho para o público que ainda não conhece a grandiosidade que é a Terra-média. Se Nori não tivesse ido buscá-lo com certeza, ele teria sido corrompido pelas místicas, mesmo não sendo Sauron. Além disso, todo arco e núcleo dos Pés-Peludos é gracioso, a ideia que eles andam por toda a Terra-Média como as estações do ano e, como eles entendem a importância da vida, a importância da natureza e como estão ligados a terra e o que ela dá, é a dimensão que precisamos para proteger o meio ambiente e o plot para também compreendermos o amor dos Hobbits pelas florestas e córregos.

Por enquanto, O Alto-Rei Élfico Gil-galad (Benjamin Walker)  ainda não mostrou muito de sua importância na trama, mas o reino de Eregion é  visualmente inacreditável. Celebrimbor (Charles Edwards) até que tentou, mas não convenceu muito, eu sinto que falta mais fogo no personagem, sendo neto do Elfo mais famoso do universo de Tolkien se espera muito dele, a cena final da forjadura dos anéis no último episódio salvou o papel na primeira temporada. Algumas pessoas acharam estranho os elfos não saberem misturar o metal, mas quem sabia não estava mais vivo para contar como isso era feito. Sauron atiçou o Celebrimbor, porque ele é o ser que desenvolveu a utilização do metal como arma e a utilização de feitiçaria na criação de objetos mágicos.  Então Sauron tinha uma ideia de criar algo mágico para controlar os seres livres, mas foi o Celebrimbor que deu a ele a peça final do quebra cabeça.

O Elfo corrompido Adar (Joseph Mawle)  se mostrou fundamental para compreendermos o quanto Morgoth foi terrível e sombrio quando corrompeu seres para serem seus escravos. É o personagem criado para a série e o mais trágico. Ele é um Elfo que não é um Elfo, um Orque que não é Orque. Ele se autodenomina, um Uruk. Sua criação é nefasta, sua existência ficou sem propósito e seu destino é terrível. Ainda assim, ele cria um caminho onde acha que é o correto para os Orques remanescentes da Primeira Era. Ele não segue uma ordem, até fala no diálogo que tem com Galadriel que os planos de Sauron é curar a Terra-média e que já está meio farto de tudo isso.

Em O Silmarillion, Tolkien fala de elfos como Adar que Morgoth transformou nos primeiros orques:  “Todos aqueles quendi (elfos) que caíram nas mãos de Melkor, antes de Utumno ser destruída, foram colocados lá na prisão, e por lentas artes de crueldade foram corrompidos e escravizados… E no fundo de seus corações sombrios os orques detestavam seu Mestre. a quem eles serviram com medo, o criador apenas de sua miséria”. 

Muito forte, não é verdade? Então, Adar foi uma espécie de prêmio para Morgoth, uma vitória sombria sobre os elfos e os Valar. Uma vez que os elfos derrotaram Morgoth e Sauron se levantou, Adar acabou apenas se transformando no passado de um senhor do mal para outro. Mas o próprio Adar não se sente em dívida com nenhuma causa maligna. E, em vez disso, vê ambos como meramente os “criadores de [sua] miséria”. Por isso que ele não tem medo de quem apareça em sua frente e objetivo.

Por outro lado, na cena, Galadriel sabe exatamente quem é Adar.  Ela chama Adar de “torturado”, “torcido”, “arruinado” e “uma zombaria”. Racista? Total. Galadriel promete matar todos os filhos de Adar, mas Adar defende eles falando que apesar da sombra e suas monstruosidades, eles ainda amam e são filhos do Um. 

Um é Eru Ilúvatar, o Ser Supremo do universo e criador de Arda. É o criador onipotente, tendo delegado, porém, a maioria de suas ações dentro da Terra aos Ainu, também chamados de Valar.

Adar até revela a Galadriel que ele matou Sauron, ou pelo menos tentou. Para Galadriel, reconhecer que sua raça pode ficar corrompida pelo mal, se tornar uma monstruosidade é chocante, o maior pecado para alguém que deu tudo que podia para acabar com aquilo que acabou com tudo que ela mais amava (sua terra e sua família)  pois é tudo que ela vem lutando por todos esses milênios. Então será que o bem que ela luta é real ou mal que ela acredita que Adar é tão terrível assim? A ironia maior nisso tudo, é que Adar estava impedindo Sauron de surgir,enquanto que foi Galadriel que fez Sauron se revelar. Ela não tinha ideia que Halbrand era Sauron. 

É isso que é incrível nos personagens de Tolkien, eles são falhos, fazem escolhas erradas às vezes. Adar só queria criar um lugar para seus filhos? Nunca saberemos, já que Sauron retornou.E ele agora aprendeu a tecnologia para forjar seus anéis e “salvar a Terra-média”.

No geral, fiquei mais do que feliz com a primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder do que esperava. Esperei muito por isso, eu compreendo que o ritmo e forma como os criadores e diretores contaram a história é lenta, mas a natureza da narrativa de Tolkien é assim, na verdade, é bem melancólico ler um monte de gente correndo lá para cá tentando salvar o mundo (Risos).

A Terra-média  é vasta demais para tentar explicar as leis mágicas que regem o universo em apenas uma temporada. Então que venha mais aventuras, desdobramentos e que esses personagens merecem todo o reconhecimento que tem. A Amazon prometeu, entregou, destruiu o meio ambiente e agora é aguardar o que o futuro nos reserva.  Por hoje é só, crianças. Recomendo!

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.