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Dica de Leitura | David Boring, de Daniel Clowes (Editora Nemo)

Finda a leitura, podemos nos perguntar: afinal, do que trata “David Boring“? As respostas poderiam ser inúmeras. Trata de amor. Ou, antes, de obsessões. Trata também de vazios que carregamos enquanto erroneamente pensamos supri-los com a figura do outro, a presença do outro, mesmo que esta seja… Vazia.

Paixão, sexo, nádegas, morte, paranoias que remetem a outras paranoias: tudo é “David Boring”. Aqui conhecemos o personagem-título, que narra os fatos com uma voz estranhamente remota, por vezes lírica, em suas percepções, compondo uma trama elíptica em três atos. Cada qual recorta a continuidade da história de maneira episódica, relacionando ainda assim eventos passados e futuros, como a acrescentar camadas ao roteiro.

A maneira como os elementos em cena se costuram é fascinante, pois mesmo objetos banais se tornam a chave para a virada entre os pontos do enredo. A morte do melhor amigo de David e o subsequente (espécie de) namoro com Wanda são os gatilhos que põem as peças em movimento.

A realidade em que a trama se ambienta é levemente alterada com ameaças prementes de contaminação “por micróbios terríveis” e outras coisas mais, que se entrelaçam com as variantes da vida de Boring, um sujeito afundado em lembranças (do pai que mal conheceu, da criação opressiva da mãe, de mulheres condenadas pelo idealismo frouxo e servil).

A apatia niilista é quase uma condição para todos a sua volta, reforçada no traço do autor, reverberando em rotinas indissolúveis. Se há concordância, é por descaso ou cansaço, o que corrobora a evidência de que o não-dito é tão relevante quanto o explícito no enredo.

No fim, ficamos com a sensação incômoda e provocadora de que algo se perdeu entre os quadros, algo se escondeu entre as páginas, levando o leitor a revirá-las em busca de um entendimento maior. Lançado originalmente em 2000, “David Boring” (144 páginas,preço sugerido R$ 59,90) é mais um acerto da Editora Nemo, que já conta com quatro trabalhos do quadrinhista americano Daniel Clowes em seu catálogo. Recomendadíssimos.

Capa do álbum gráfico “David Boring”, escrito e desenhado por Daniel Clowes. Todos os direitos reservados à editora Nemo.
Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br