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Em “De Mar a Mar”, a Colonização da América Ganha Forma na Arte Soberba de Enrique Breccia

Era o tempo de homens bravios, com moral questionável e uma vontade irascível de acumular ouro e toda sorte de riquezas que encontrassem pela frente. Era o tempo da conquista da América pelos espanhóis, uma época dura, que desafiava sonhos e impunha aos que se aventuravam mar afora uma miríade de novidades, incluindo povos exóticos, “selvagens”, que perdiam palmo a palmo o domínio sobre as terras chamadas de “novo mundo”. Mas não sem antes resistirem. As riquezas, afinal, eram tomadas cobrando o preço de corpos empilhados pelo caminho.

Em “De Mar a Mar: A Descoberta do Pacífico”, com roteiro de Cristóbal Aguilar Jiménez e arte de Enrique Breccia (Editora Comix Zone, 56 páginas, R$ 69,90), conhecemos Vasco Núñez de Balboa, um homem impávido, retratado como um bom negociador de alianças com os nativos americanos, tão logo eles aceitavam a superioridade armamentista dos invasores. Balboa não imaginava, mas estava destinado a um grande feito nesse cenário: a descoberta do Oceano Pacífico, então conhecido como Mar do Sul.

O caminho, tortuoso e inesperado, começa com a ida clandestina de Vasco, endividado e sem perspectiva, em uma nova expedição espanhola pela região do Caribe, que culmina com a fundação da colônia de Darién, da qual se torna prefeito após um levante contra o governante originalmente designado pela Coroa. Em seus avanços pela região em busca de ouro, ouve dos indígenas sobre as fontes inesgotáveis de famigerado metal amarelo que estariam além das montanhas.

Começa assim sua jornada, na qual enfrentará a selva, as tribos locais e sua rivalidade entre si, as doenças e tudo mais que surja em seu caminho até o oceano.

O roteiro é conciso, resumindo diversas passagens históricas e apresentando personagens sem muito contexto prévio. Por vezes, o atropelo entre os fatos e datas acaba causando certa confusão no leitor, principalmente quanto à revolta que se arma em Darién contra Vasco Balboa durante sua ausência. Mas o deslumbre da arte de Breccia compensa a experiência da leitura por si só.

São ricas aquarelas que abusam das cores fortes, retratando um continente americano ainda preservado; combates entre indígenas e espanhóis feito de flechas e canhões; a cobiça por um ouro lavado em sangue. Cada painel é, por si só, uma obra de arte.

Leitura fluida e ambiciosa, “Mar a Mar” é um quadrinho marcante, que honra a memória de um conquistador espanhol pouco lembrado na História. Entre os extras apresentados, o volume traz uma introdução do historiador Manuel Carrera Díaz, que ajuda bastante a contextualizar o enredo e a conhecer melhor um personagem tão fascinante.

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br