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Sex Education | Terceira temporada vem com tesão!

Não se engane! Sex Education é sobre sexo.
Não se engane! Sex Education é sobre sexo.

Não se engane! Sex Education é sobre sexo.

A terceira temporada de Sex Education veio com força, com tesão, intensa e profunda! Se você for um desavisado que chegou ali por acaso, os minutos que antecedem os créditos iniciais já no primeiro episódio, à exemplo do que fizeram no início do segundo ano, separam o joio do trigo: é uma série sobre sexo adolesceste e eles não querem falar sobre isso se não puderem mostrar muito… sexo!

Eu já resenhei a primeira e segunda temporada de a série, é uma das poucas que estou acompanhando, principalmente por causa da Gillian Anderson (Arquivo X) que interpreta a sexóloga Jean Milburn e mãe do protagonista Otis Milburn, mas a verdade é que outros personagens já roubaram meu coração desde as temporadas anteriores.

Se você leu as resenhas que fiz antes sobre Sex Education (aqui e aqui) sabe que, na minha opinião, os personagens Eric Effiong (Ncuti Gatwa), Adam Groff  (Connor Swindells) e Aimee Gibbs (Aimee Lou Wood) roubam todas os olhares nos dois primeiros atos e, neste terceiro momento, temos um abre-alas para outros personagens brilharem, principalmente a veterana Mimi Keene, que interpreta a patricinha Ruby Matthews, e para as estreantes no show Jemima Kirke, que faz a diretora Hope Haddon, e Dua Saleh, que interpreta o homem trans Cal Bowman (corrijam-me se estiver usando o termo errado aqui sobre essa personagem).

PONTOS FORTES

1) Ruby Matthews, que faz a típica patricinha popular de colégio púbico em filmes e séries norte-americanos, revela-se nesta temporada e usa Otis Milburn como escada para destilar simpatia, arrogância e sexo. Mimi Keene exala sensualidade em cada olhar e respiração e a profundidade que oferecem para sua personagem é muito cativante, levando tanto ela quanto seu núcleo de coleguinhas para outro nível dentro da série, mostrando que existe amizade real até mesmo entre os patricinhas da escola.

2) Hope Haddon foi a boa surpresa da série, ela surge como a nova diretora da escola, sorridente e amigável e, claro, com um monte de cadáveres no armário esperando aparecer. Em sua segunda cena na série, eu já havia matado a natureza da personagem quando ela cumprimenta Adam Groff (notório garoto-problema da escola, mas branco) pensando que ele seria Jackson Marchetti (interpretado por Kedar Williams-Stirling, popular aluno, esportista e representante de classe dentro da escola, “porém” negro). A partir daquele momento eu pensei que ela seria uma espécie de caricatura fascista, mas não é exatamente isso, é mais delicado e bem construído.

A nova diretora representa um tipo de gente que não se identifica como neofascista, que não é panfletária ou abertamente explícita em sua ideologia extremista e, por isso, pode ser bem mais perigosa que estes que são claramente reacionários. Hope representa aquele conservadorismo bolorento, mas bem vestido, que é capaz de interagir com um homem ou mulher pretos apenas para utilizá-los afim de manter uma aparência moderninha, quando, na verdade, odeia todo tipo de minoria ou questionamentos ao puritanismo americano.

3) Cal Bowman representa um novo tema acrescentado à série que é a questão do gênero não-binário. Cal é uma verdadeira simpatia, é aquele colega que nós poderíamos ter como o melhor amigo dentro da sala de aula e, para Jackson Marchetti, foi muito além disso. Jackson acaba se envolvendo romanticamente com Cal e isso causa um certo curto-circuito em mentes cis-hetero, porque, no frigir dos ovos, ele acaba se encontrando em um relacionamento queer e isso se torna uma barreira que precisa ser contornada.

Além dos três pontos fortes levantados aqui, há duas menções honrosas que precisam ser colocados: 1) A relação de Erin Wiley (Anne-Marie Duff) com sua filha Maeve (Emma Mackey) e 2) o possível início de redenção do Sr. Groff (Alistair Petrie). Anne-Marie dá um show de interpretação nas poucas cenas em que aparece e consegue construir pequenas preciosidades no show com todos os personagens com quem contracena e Alistair, o pai de Adam Groff, começa a se reencontrar na série, procurando onde podem estar escondidos os pequenos prazeres da vida e transformar sua obsessão secreta por barras de chocolate em uma epifânica e influenciadora lembrança culinária de sua mãe, foi muito inteligente (vou evitar entrar em mais detalhes, merece ser descoberto vendo a série).

MAS DO QUE TRATA?

Eu tentei listar os assuntos ou temas que a temporada aborda e são muitos e vão desde discussão sobre pinto pequeno até uso medicinal de maconha, passando pelo tamanho dos lábios vaginais até a prática do sexo como opção para lidar com o luto. É muita coisa.

1) Um dos destaques do primeiro episódio é a participação de Dex Thompson (interpretado por Lino Facioli, ator anglo-brasileiro mais conhecido por Lord Robin Arryn, de Game of Thrones). Seu problema é o fato de não conseguir fazer sua parceira de sexo casual gozar e ele é levado a crer que o tamanho do seu documento que seria o problema.

Eu gostaria que Dex tivesse aparecido mais na série, mas sua participação se limita a este começo de temporada, mesmo assim a questão do tamanho do pênis é colocada na mesa neste que é o mais explícito episódio da temporada, e olha que tem cena em que aparece gente transando no meio de outros alunos, a céu aberto, durante uma excursão de ônibus da turma.

Para aqueles que até gostam de Sex Education, mas se incomodam com o sexo recorrente ou com nus frontais masculinos, é preciso entender que tudo isto está mais para um realismo fantástico do que para o inverossímil e, nesta pisada, apesar da indicação ser 16 anos, talvez Sex Education funcione melhor para um público mais maduro.

2) Sexo com pessoa cadeirante: este é um tema muito delicado e foi construído de maneira muito feliz. Desde a temporada anterior a série vem desenvolvendo o relacionamento de Maeve com seu vizinho Isaac (interpretado por George Robinson, um ator verdadeiramente cadeirante). O diálogo entre o casal explicando os limites de seus corpos e as zonas de prazer é, surpreendentemente, uma quebra de tabu muito bem-vinda e revela que sexo é muito mais que penetração e pode ser singelo como um carinho na orelha ou um beijo no nariz.

3) Uso medicinal da maconha é inserido na trama de forma despretensiosa e sem grandes consequências e serve mais para a escalada da personagem Ruby, já que seu pai tem graves dores na coluna e faz uso da erva como parte de um tratamento para aliviar o incômodo. Mas, obviamente, isso não impede a situação recreativa da coisa toda. Um tema atual e importantíssimo em dias reacionários em que vivemos.

4) Homossexualidade proibida: em determinado momento da série, somos convidados a visitar a Nigéria com Eric Effiong e um tema é abordado de forma assustadora: ser homossexual na Nigéria é um perigo, você pode ser atacado publicamente de forma violenta por isso, por que lá é oficialmente proibido. Se você é íntimo de Eric, sabe que ele é super pintoso, gosta de altas gargalhadas, roupas coloridas e muita maquiagem, elementos obrigatoriamente podados em sua terra natal, o que nos leva a conhecer um verdadeiro submundo, escondido em guetos que explodem em festas, luzes e cores escondidas em clubes camuflados da sociedade. É agressivo, e Eric sabe que não pode viver escondido dessa maneira.

No Brasil a homossexualidade não é proibida como na Nigéria mas, de alguma maneira, as situações retratadas lá não são exatamente estranhas a nós. A Nigéria possui algo de Brasil, ou o contrário. Não apenas em seu preconceito, mas também em questões divertidas: Eric vai a um casamento de família e é impossível não se identificar com aqueles personagens, com aquela tia que leva a tupperware pra juntar comida e levar pra casa, naquela maneira explosiva de falar e simpática de sorrir e abraçar. O Brasil tem raízes profundas, capazes de atravessar oceanos…

Já escrevi demais. Ainda há muitos assuntos envolvendo sexo, ou não, que aparecem na série, como gravidez em idade avançada, ou a preferência pelo sexo ativo ou passivo numa relação homossexual, ou a fuga de fantasias sexuais na procura de uma relação mais real e concreta, mas eu quero que você pare de ler tudo isso e vá ver Sex Education, porque o que importa é o prazer que ela pode lhe proporcionar.

Até a próxima!

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos