Domingo, 02 De Dezembro De 2018

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D&Dezembro| Qual o lugar da Fantasia na literatura?

Pegando descaradamente o título D&Dezembro emprestado do youtuber gingo ProJared, esta será uma série anual onde a cada dezembro tentaremos preparar textos sobre D&D e RPGs todos os dias!

O t√≥pico do qual eu desejo discorrer hoje me veio √† cabe√ßa quando, no grupo de administradores do site da Quinta Capa (voc√™s n√£o acreditam que isso tudo aqui √© espont√Ęneo, n√£o √©?), um de nossos produtores de conte√ļdo (que n√£o revelarei o nome para protege-lo da f√ļria incontrol√°vel da internet) revelou seu preconceito com hist√≥rias de Fantasia. “Fantasia”, leia-se aqui como a literatura dissociada do mundo real tanto em sua l√≥gica interna quanto em seus acontecimentos hist√≥ricos. Drag√Ķes, ra√ßas, castelos, esse tipo de coisa.

Eu n√£o vou me referir a este tipo de “fantasia” como “fantasia medieval”, pois o pr√≥prio D&D apesar de se vender como medieval, tem muito mais elementos de um per√≠odo hist√≥rico Cl√°ssico. O nome correto para este tipo de literatura √©¬†Sword and Sorcery ou “Espada e Feiti√ßaria”.

Esta, √© claro, n√£o foi a primeira e provavelmente n√£o ser√° a √ļltima vez que encontrarei algu√©m que n√£o cria gosto pela literatura/entretenimento fant√°stico ou com algu√©m que realmente n√£o entende o apelo de se ler sobre um lugar t√£o imposs√≠vel e distante de nossa realidade.

Ou ser√° que n√£o? Para isso, desejo fazer uma pequena aulinha de literatura ‘moderna’:

J√° fazendo um jab√° para a editora Pipoca&Nanquim
J√° fazendo um jab√° para a editora Pipoca&Nanquim

O personagem Conan de Robert E. Howard, apesar de ser mais conhecido pelo filme de Arnold Shwarzenegger, data de 1932 e pode ser citado como um exemplo de literatura pulp.

Junto com seu colega-de-depress√£o Howard Phillips Lovecraft, Robert E. Howard escreveu no per√≠odo de recupera√ß√£o econ√īmica dos estados unidos depois da quebra da bolsa de valores de 1929, que for√ßou o crescimento de uma literatura de baixo custo e baixa qualidade material impresso em papel de polpa. Os contos de Howard e de Lovecraft diversas vezes dividiam espa√ßo com outras hist√≥rias de outros in√ļmeros escritores (tal qual Edgar Alan Poe antes deles).

Uma caracter√≠stica desta literatura √© que, apesar de fant√°stica e cheia de fic√ß√£o, ainda existia algum tipo de conex√£o com o mundo¬†real para contextualizar a obra: Conan se passa na mesma Terra em que vivemos, s√≥ que em um per√≠odo pr√©-hist√≥rico; John Carter √© um veterano Confederado que foi misteriosamente transportado para Marte… Os exemplos s√£o in√ļmeros.

E este padrão da literatura pulp se repetiria até a vinda de John Ronald Reuel Tolkien.

J.R.R. Tolkien (para caso voc√™ tenha nascido debaixo de uma pedra e l√° ficado se alimentando de minhocas) √© o escritor Sul-Africano que fez sua contribui√ß√£o para o mundo da Fantasia com suas obras sobre as aventuras da Terra-M√©dia atrav√©s dos livros “O Hobbit” e “O Senhor dos An√©is” (postumamente tamb√©m temos “O Silmarillion”, compilado por seu filho), que atualmente s√£o livros conceituados n√£o somente no mundo da literatura, como tamb√©m do cinema.

Quem desconhece o mago Gandalf hoje em dia?
Quem desconhece a figura austera do mago Gandalf hoje em dia?

Tolkien meio que chegou no mundo pra dizer… “Meh, voc√™ pode escrever sobre o que quiser”.

E a coisa importante sobre a libera√ß√£o deste tipo de amarra √© que, apesar de parecer dissociar completamente a literatura da realidade, apenas faz com que ela seja tratada de uma forma diferente: Mesmo com Elfos, An√Ķes e Magos, a Fantasia √© profundamente humana, pois cada um dos arqu√©tipos de cada “ra√ßa” representa um v√≠cio ou uma virtude que existe dentro de n√≥s.

A gan√Ęncia dos an√Ķes de Khazad-D√Ľn que os levaram a cavar t√£o fundo em busca de riquezas que acabaram perdendo n√£o somente a vida ao despertar um dem√īnio ancestral, como tamb√©m seu reino e parte de sua hist√≥ria. A melancolia existencial que os Elfos enfrentam ao serem obrigados a conviverem com a perpetuidade de sua pr√≥pria exist√™ncia, elevando seus padr√Ķes de moral, √©tica e beleza. A corrup√ß√£o que uma bela ra√ßa pode sofrer atrav√©s da viol√™ncia. Tudo isso √©, al√©m de um tema recorrente dentro das hist√≥rias fant√°sticas de Tolkien, profundamente humano.

Acredito que essa pode ser uma forma saudável de se abordar o assunto, assim como eu disse recentemente no meu texto sobre Castlevania da Netfix, acredito que esta seja uma parte da essência do gênero que atrai tantas pessoas.

Outra coisa tamb√©m √© que, num mundo dissociado do nosso e com regras de funcionamento pr√≥prios, pode ser um desafio um tanto interessante tanto como leitor quanto de escritor criar algo condizente em um lugar t√£o alien√≠gena. Como a exist√™ncia p√ļblica da magia afeta a cren√ßa das pessoas nos Deuses? Como as pessoas lidam com o universo que as cerca? Cultos? Filosofias? Voc√™ v√™, tudo √© uma quest√£o de criatividade onde se torna interessante modificar um pouco da realidade e ver como isso possivelmente afetaria o mundo. At√© mesmo a exist√™ncia de mais de uma Lua pode ter efeitos teol√≥gicos e meteorol√≥gicos imprevis√≠veis e criativos!

O próprio Conan, o bárbaro, apesar do imaginário popular de ser apenas um brutamontes com uma grande espada, revela muito sobre a crença de Robert E. Howard, que ao viver o Crash de 29 desenvolveu um profundo senso de que no fim, a selvageria sempre ganha. Conan não é um bruto porque lhe falta intelecto, muito pelo contrário! Boa parte das batalhas do bárbaro nos contos originais são vencidas por sua inteligência estratégica. Ele é um bruto porque esta é a forma mais lucrativa de se viver naquele lugar. Afinal a convivência de bárbaros é a mais civilizada possível, pois todos sabem que se ocorrer algum desaforo, alguém perde a cabeça.

Conclus√£o.

A despeito do extremo mal gosto de alguns, eu consigo compreender a escolha e preferência individual por histórias mais próximas da realidade, é necessário também compreender que estas histórias fantásticas e tão fora da realidade possuem seu valor histórico-cultural.

 

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