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As Origens do Shazam – Parte 3. Jeff Smith, 2007. A Sociedade dos Monstros

Chegamos à terceira parte sobre as origens do Capitão Marvel e, desta vez vamos falar sobre “Shazam! & A Sociedade dos Monstros”, lançada originalmente nos Estados Unidos em 2007 e no Brasil apenas em 2014, pela Panini.

Se você chegou até aqui sem conhecer nossos textos anteriores sobre as origens do Shazam, sugiro que leia a parte 1parte 2 para entender melhor como estamos tratando o assunto. Nossa ideia é fazer uma comparação entre 4 origens diferentes disponíveis para o mesmo personagem, e agora é a vez da versão criada por Jeff Smith.

Jeff Smith é o premiado autor do quadrinho Bone, já lançado aqui no Brasil (infelizmente, de forma incompleta) pela editora Via Lettera e HQM. Se você ainda não conhece Bone, sugiro que aguarde a versão que será lançada pela editora Todavia, porque vale muito à pena. Agora, se você já conhece Bone mas não leu Sociedade dos Monstros,  deve ter uma boa ideia do que lhe aguarda neste de Shazam.

Na livraria Quinta Capa Quadrinhos, onde trabalho, costumo indicar “Shazam & A Sociedade dos Monstros” para pais e filhos, pois acredito que é um desses livros especiais que falam para, e podem agradar, uma longa faixa etária de público.

Na introdução de “Sociedade dos Monstros”, Alex Ross (Marvels / Reino do Amanhã) diz que “não é com frequência que vemos os super-heróis abordados como eram originalmente”, apesar disto, a versão de Jeff Smith é, sem sombra de dúvidas, a mais ousada e diferente do Capitão Marvel que abordaremos aqui, justamente por trazer de volta o espírito carismático simplista dos quadrinhos dos anos 40 ou 50, tão anacrônico e mal aceito no mundo complicado dos dias de hoje.

Com um traço típico de quem vem de uma escola de animação, Jeff Smith nos apresenta a versão mais lúdica e “fofinha” que o personagem já teve, ao tempo que nos lembra desse espírito original do personagem, de que nos falou Alex Ross.

O que Jeff Smith traz de volta é, justamente, uma versão que o próprio Jerry Ordway não abordou em sua origem anterior: um Capitão Marvel sábio, diferente de Billy, com uma própria personalidade. Mas a linha que divide Billy do Capitão é muito tênue. Jeff aborda Billy como um novo hospedeiro para o Capitão, ao tempo em que eles se dividem e se completam.

Um detalhe curioso de ser colocado é que, observando as versões do Billy que encontramos nas origens da década de 1940, 1990 e, mesmo na versão do novo milênio (Novos 52), que analisaremos futuramente, Billy aparenta ser um jovem, beirando ali entre os 12 e 16 anos. Eu diria que na versão de Jeff Smith temos, de verdade, uma criança com, no máximo, uns 8 anos de idade.

Billy Batson de Jeff Smith, uma criança de verdade.

 

A escolha por mostrar um personagem mais infantil que as demais versões do Capitão Marvel, transparece por todo o gibi, desde uma trama bem simples até a forma como apresenta os vilões “monstros” e as cômicas cenas de batalha, tudo muito cartunesco.

Capitão Marvel enfrentando os terríveis monstros jacarés e outras criaturas macabras e divertidas

 

Além disso, sobre esse Capitão Marvel, Alex Ross nos lembra ainda que “por muitos anos, a abordagem padrão era simplesmente considerar que Billy era um garoto dentro do corpo de um homem. Jeff sabia que o conceito original era bem maior que isso. Trazer de volta a ideia  de que o Capitão Marvel é o gênio dentro da lâmpada Billy Batson, com diferenças de maturidade e mentalidade entre eles, foi uma mudança também bem-vinda”. Na primeira parte de nossa pesquisa sobre as origens do personagem, onde lemos sua primeira versão, de 1940, abordamos justamente isso: Capitão Marvel não age como uma criança, ele é altivo e imponente.

Guy Gardner, o mais irritante (e legal) Lanterna Verde de todos os tempos, chamava o Capitão Marvel, na década de 1980, nos tempos da Liga da Justiça cômica do Keith Giffen, como “Capitão Fraudinha”. Daí nós podemos ter uma ideia de como o personagem vinha sendo representado durante muitos anos: uma criançona no corpo de adulto, normalmente ignorando o fato de que Billy poderia facilmente acessar à sabedoria de Salomão.

Esse é o tipo de erro de interpretação que Jeff Smith procura contornar.

Uma das cenas onde essa dualidade Billy/Capitão Marvel fica mais evidente, é quando Billy vai até a emissora de tv SNN e tenta fazer uma denúncia querendo falar diretamente ao dono, o Sr. Morris. A criança é ignorada pela repórter de tv Helen Fidelity e, depois volta como Capitão Marvel. A moça, completamente simpática e “disponível” ao Capitão, tenta conversar com ele e oferece ajuda, ele responde: “Acho que seria melhor conversar diretamente com o Sr. Morris”. Ele dá uma cortada na moça, que vai atrás de encontrar o Sr. Morris. Satisfeito com sua atitude, Capitão Marvel pergunta pra si: “gostou dessa, Billy?”, ao que ele mesmo responde: “gostei sim”, deixando claro que se tratam de dois seres dividindo mesmo corpo e mente.

 

Billy e Capitão Marvel são duas identidades e personalidades diferentes dividindo o mesmo corpo.

 

Quanto à origem do personagem, é tudo muito simples e fiel à hq de 1940. A figura encapuzada (que Billy reconhece como seu pai, algo que não está claro naquela primeira edição) que leva nosso protagonista até um trem estranho, que segue o mesmo visual do trem original, assim como as enormes estátuas que representam os sete inimigos mortais da humanidade.

O processo de escolha que torna Billy apto para o papel de substituto do mago Shazam é muito simples: o poderoso velho de longas barbas brancas, padrão em todas as origens até aqui, apenas testa uma faísca no dedo de Billy para perceber se sua “eletricidade” é boa e se ele serviria.

“Billy Batson! Diga a palavra Mágica!”. “Shazam!” “BABOOM!” Tudo muito rápido. A pedra cai sobre o Mago, ele morre mas explica que pode ser invocado quando a chama no braseiro for acesa. Tudo conforme o combinado e como já vimos anteriormente.

As diferenças dessa primeira aventura, em comparação às outras, são no foco dos vilões e em como Jeff Smith recria e introduz Malhado e Mary Marvel logo de cara, nessa nova versão.

Pra começar, Malhado, que é um personagem muito marcante na história do Shazam, não havia aparecido nas outras edições de origem abordadas nas partes anteriores de nossas “reportagens”. Mas quem é Malhado? É um enorme tigre de bengala, a melhor tradução do lúdico que podemos ter em Shazam. Ele só veio aparecer pela primeira vez apenas oito anos após a criação de Billy Batson, na revista Capitain Marvel #79, de dezembro de 1948. Na origem de Jerry Ordway, ele aparece apenas como um boneco de pelúcia, onde é escondido parte do colar de escaravelho que criaria Adão Negro. O boneco só vem ganhar vida na sua série mensal, tornando-se um tigre bípede, usando terno e roupas quadriculadas, como os leitores já conheciam desde a década de 40.

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O que temos para Malhado, na versão de Jeff Smith, é bem diferente. No começo do gibi ele aparece como um mendigo que vive nas ruas e é amigo de Billy. Ele está ali desde o começo, meio que já observando o garoto, esperando o momento certo para se revelar como um Ifrit, um espírito andarilho que muda de forma e que trabalha para o Mago Shazam, e que irá ajudar Billy ao longo de sua jornada no gibi. Ele aparece também como um pequeno gato preto (não sei se este tipo de transformação já foi apresentado por Malhado em versões anteriores).

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Outro personagem com sensível mudança é Mary Marvel que, acidentalmente também ganha poderes em A Sociedade dos Monstros, sofrendo uma pequena descarga de poder quando está próximo ao Billy em um momento de transformação. Nas outras versões da Mary Marvel, ela não é apresentada como uma adulta, igual Billy se parece transformado no Capitão Marvel. Desde que Mary Marvel surgiu, em 1942, ela torna-se uma garota beirando seus 15 ou 18 anos de idade, principalmente na versão dos Novos 52 (que trabalharemos na parte 4).

Primeira aparição de Mary Marvel, em Capitão Marvel de 1942.

No gibi de Jeff Smith, Mary é uma criança como Billy, e quando transforma-se em uma integrante da família “Marvel” continua sendo uma criancinha, e é muito divertido vê-la, tão diminuta, agindo ao lado de um gigante como fica o Billy, transformado ao seu lado.

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Existe ainda um ponto que deve ser realçado nesta origem, que são os vilões. Primeiro nós temos um Dr. Silvana diferente do que já vimos antes. Ele não é um “cientista do mal”, como vimos em 1940 e nem é um bandido rico e envolvido com pesquisas arqueológicas, como vimos nos anos 1990. O que temos aqui é uma terceira versão de um dos icônicos vilões do Capitão Marvel: um político corrupto, com mania de grandeza.

Ele envolve-se na história não porque tenha algo a ver com a origem do personagem, como vimos na versão de Jerry Ordway, mas simplesmente porque ele dirige o Departamento de Tecnologia e Segurança Nacional, e a aventura de Sociedade dos Monstros gira em torno de um figura robótica gigante que ameaça a soberania dos EUA e Dr. Silvana torna-se o porta-voz do país diante deste problema.

Por fim, o terceiro e mais bizarro dos principais vilões do Capitão Marvel (que inclui o Dr. Silvana Adão Negro),  aparece apenas nesta origem do personagem: o Sr. Cérebro! É um verme alienígena vindo de Vênus que, ao chegar à Terra, começou a dominar os cérebros dos humanos! Mas não vamos entrar em detalhes, para que leiam o gibi!

Essas são as principais diferenças desta versão da origem do Shazam com relação às demais origens apresentadas.

 

Não viu as outras origens do Shazam? Acesse aqui:
Parte 1 – https://quintacapa.com.br/as-origens-do-shazam-parte-1/
Parte 2 – https://quintacapa.com.br/as-origens-do-shazam-parte-2-jerry-ordway-1996/
Parte 3 – https://quintacapa.com.br/as-origens-do-shazam-parte-3-jeff-smith-2007-a-sociedade-dos-monstros/
Parte 4 – https://quintacapa.com.br/as-origens-do-shazam-parte-4-com-uma-palavra-magica-de-gary-frank-geoff-johns-2012/

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos