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Kamen Rider Build | A Fórmula para a Vitória de um Tokusatsu

À exceção de Power Rangers, os seriados live action com coloridos herois enfrentando monstros não pegam mais no Brasil. Os heróis do gênero tokusatsu(abreviação de tokushu kouka satsuei, que significa filme de efeitos especiais) desapareceram quase que por completo do Brasil no ano 2000, após uma superexposição que desgastou o mesmo. Isso e a concorrência com os próprios Power Rangers. O conceito pegou e até hoje seguem como referência do gênero. E sobre outras franquias do gênero original, ficamos apenas com as memórias do que ficou.

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Deus abençoes a Rede Manchete!

O que é uma pena. Não discuto a qualidade da série ocidental, mas o gênero oriental(dadas as devidas proporções) evoluiu muito, principalmente no início do século. A franquia Kamen Rider teve a exibição de duas das suas séries (Black e Black RX) no Brasil, além da curta adaptação ocidental Kamen Rider – O Cavaleiro Dragão(adaptado de Kamen Rider Ryuiki) em 2009 na Globo. A franquia, ao lado da franquia super sentai(de onde saíram os Power Rangers) é muito popular e rentável no Japão. Desde o ano 2000, todos os anos temos uma série nova da franquia e Kamen Rider Build é a versão de 2017, que teve seu fim neste domingo, dia 26 de agosto.

Do que se trata?

Kamen Rider Build se destoa das outras séries por apresentar uma ambientação diferente. Ela se passa num Japão mais avançado que conseguiu pousar em Marte, descobrindo restos de uma civilização e uma estranha caixa batizada de Caixa de Pandora. Durante um anuncio público, o astronauta que descobriu a caixa a abre e uma estranha muralha se ergue, dividindo o país em três: Touto, Seito e Hokuto. Cada região tem o seu governo e suas ambições: unir o país, sob seu jugo. E neste momento de tensão política, monstros estranhos assolam Touto, criados pela organização Faust. E só quem pode combate-los é um misterioso vigilante, que dá o nome à série.

Confira a abertura da série, com a canção Be The One, do grupo PANDORA com a vocalista Beverly.

O primeiro ato de Kamen Rider Build não difere de algo esperado de uma série do tipo: Sento Kiryu(Atsuhiko Inukai) combate os Smash, monstros criados por uma organização maligna chamado Faust, usando um estranho gás expelido pela muralha. Diferente de séries mais antigas, Build não destrói os monstros: ao derrotá-los, ele absorve a essência deles em garrafas. Ao fazer isso, os Smash voltam a serem humanos normais.

A trama parece genérica, mas à medida que os episódios vão avançando, não demora para que seja revelado que a Faust e muito do que acontece serve a um propósito muito maior e mais sinistro. Sento está com amnésia e só tem seus conhecimentos científicos e os cintos e garrafas que o tornam capaz de se transformar em Kamen Rider Build. E, quanto mais monstros ele derrota, mais essências ele captura em garrafas(o que o permite assumir novas formas) e mais ele vai crescendo.

Sento faz de um café local a sua base. Não pode se mostrar muito, pois é considerado inimigo público(mais uma diferença de outras séries). O dono do café Souichi Isurugi(Yasuyuki Maekawa) e sua filha, Misora(Kaho Takada) convivem com ele. Build a salvou pois era prisioneira da Faust e é ela quem purifica as garrafas que Sento traz, usando de um estranho poder. Também é uma youtuber famosa chamada Mii-tan. Sawa(Yukari Taki), uma jornalista investigativa que é mais do que aparenta, também acaba se juntando à equipe.

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Misora em sua persona de Mii-tan

Outros Riders

Kamen Rider Build também mantém a tradição de manter um ou mais parceiros para o protagonista. Banjo Hyuga(Eiji Akaso) é um ex-lutador que foi banido do mundo das lutas e acaba sendo mais uma das vítimas da Faust, que o sequestrou após culpa-lo por um crime que ele não cometeu. Acaba fugindo e sendo salvo por Sento. Ambos são muito opostos, com Sento sendo mais calmo, analítico e bem humorado; Banjo é esquentado, impulsivo porém mais intuitivo que Sento. A química entre ambos é muito boa e o bate boca entre eles é sempre engraçado.

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Banjo, se disfarçando para andar por aí

Também é tradição que outros Riders surjam e nem sempre eles são aliados, a princípio. No segundo ato de Kamen Rider Build, quando as tensões entre os três países se agravam, somos apresentados à Kazumi(Kouhei Takeda, que também esteve em Kamen Rider Kiva), o Kamen Rider Grease. Um proprietário de terras, Kazumi perdeu tudo e se alistou para lutar por Kouto junto com seus subordinados. De início mostrando-se frio, calmo e desapegado, Kazumi logo mostra um lado mais bobo e sem noção.

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Kasumi / Kamen Rider Grease

Gentoku Himuro(Kensei Mikami) também se torna um antagonista perigoso, após se tornar o Kamen Rider Rogue. De início mostra-se um burocrata comum, que chegou onde está por influência do pai, o primeiro-ministro de Touto Taizan Himuro(Meikyo Yamada). Mas mostra-se ambicioso e, assim como os outros líderes, acredita que o Japão precisa ser unificado sob um único e forte governo. Por isso, seu papel na Faust. O segundo ato da série tem nele o seu ponto mais alto, quando este se torna um Rider imensamente poderoso e perigoso.

Kamen Rider Build mostrou um saldo muito positivo por conter personagens bem construídos e oferecer um pano de fundo com intrigas políticas cheias de subterfúgios, coisa incomum em um seriado live-action infanto juvenil. Sento é o típico gênio concentrado; porém bem humorado, mas atormentado por não ter suas memórias e por suas descobertas sobre sua conexão com a Faust e o cientista Takumi Katsuragi(Yukiaki Kiyama); Banjo quer a todo custo limpar seu nome, reconstruir sua vida e vingar sua noiva. Kazumi perdeu muito com o conflito e quer honrar a memória de seus companheiros.

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Arte de ウミウC. Da esquerda para a direita: Sento/Build; Banjo/Cross Dragon; Kasumi/Grease; e Gentoku/Rogue.

Mas é Gentoku quem mais chama a atenção e evolui na série.

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Kensei Mikami já foi modelo e, além da aparência e altura, ele se distingue pela voz. Bem grave e profunda, isso dá a ele um tom mais ameaçador. Porém, o ator consegue ficar à vontade em momentos dramáticos e cômicos.

De um político ambicioso e inescrupuloso, à super-vilão impiedoso e (finalmente) um herói, a jornada de Himuro Gentoku foi algo maravilhoso de se testemunhar: sua queda como braço direito de seu pai foi um ponto determinante para que ele se tornasse um adversário perigosíssimo e um vilão memorável; mas sua tragédia o definiu como um homem muito maior do que o visto no início de Build.

Visual

O design dos personagens como sempre é de alto nível. Kamen Rider Build é o Rider com maior número de formas alternativas, todas lindas. Agora imaginem a quantidade de action figures que a Toei não está vendendo! Grande parte do faturamento de séries tokusatsu vem de seu merchandising: quanto mais brinquedos, acessórios e produtos relacionados vender, maior o sucesso da série. E com cintos, brinquedos baseados nos Riders, monstros, robôs, espadas, pistolas, máscaras… Bem, a série já é um dos maiores sucessos nessa temporada devido não só à audiência, mas nesse fator também.

As transformações dos personagens são interessantes. Mantem-se a tradição do henshin(transformar, do japonês; em raras séries não temos este brado) e o modo como isso acontece é interessante: Sento encaixa suas garrafas, gira uma manivela e uma espécie de impressora 3-d se forma ao seu redor, gerando o traje que o transforma em Build.

As formas e seus nomes são um caso à parte: elas são combinações um tanto quanto bizarras. São nomes muito aleatórios como Rabitt-Tank(Coelho-Tanque), Falcão-Metralhadora, Ninja-Quadrinho, Gorila-Diamante Pirata-Trem, Polvo-Lâmpada… tem até o Lobo-Smartphone! Parece tudo muito bizarro e aleatório, mas a série faz questão de explicar isso e, pasmem, consegue fazer sentido!

Enredo

Mas a cereja do bolo é o próprio roteiro. A história da série permaneceu amarrada e consistente, com boa quantidade de plot twists surpreendentes. Iniciando como uma série comum, não demora a ser revelado quem Sento é na verdade e a partir daí, é reviravolta em cima de reviravolta. Um exemplo é Sawa, que se revela mais do que uma jornalista e seu papel faz parte de várias reviravoltas, tendo relação com outros personagens aparentemente sem conexão aparente. E ela tem seu ápice em vários momentos da série, principalmente no final do segundo ato.

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Sawa

A série tem um senso de humor incrível e inteligente. Durante as recapitulações dos episódios, os personagens conversam rapidamente e ficam avacalhando uns aos outros, quebrando a quarta parede várias vezes e até mesmo alguns vilões entram na onda! Não importa o quão tensa estava a situação no episódio anterior: se houver recapitulação, vai ter piada! Apenas em raras excessões este recurso não é utilizado. O final, inclusive, guarda uma piada envolvendo isso.

Defeitos

Se tem algo que é estranho na série é a sua semelhança com Dragon Ball Z e Super. Em dado momento, é explicado que os usuários do sistema Rider tem um Nível de Perigo(Hazard Level no original) que aumenta à medida que lutam. Isso não soa familiar?

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Outra semelhança com Dragon Ball é o surgimento de formas especiais em momentos cruciais da série. Embora Kamen Rider Build tenha várias formas alternativas, algumas aumentam e muito o seu poder, equivalendo às diferentes formas de Super Saiyajin. A forma Sparkling Rabbit-Tank(uma evolução de sua forma mais básica), a forma Rabbit-Tank com o gatilho do perigo, as formas Rabbit-Rabitt e Tank-Tank, culminando com a forma Genius(essa seria a Instinto Superior da série).

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Sento instinto superior!

Outra coisa que incomoda é o grande vilão, Evolt. Não é um vilão ruim. De fato, creio ser um dos mais perigosos e poderosos vilões da história da franquia Kamen Rider, e provavelmente o mais cruel. Ele é mostrado como um grande conspirador, impiedoso e que não hesita em matar inocentes para avançar sua agenda e é incapaz de sentir remorso ou qualquer outro sentimento. Porém é frustrante ver que tudo o que acontece na série acaba indo a seu favor, numa repetição do clichê “tudo está ocorrendo de acordo com o planejado”. A série poderia ter se esforçado mais em mostrar conquistas dos heróis como algo surpreendente e como algo mais recompensador e não tudo sendo previsto pelo vilão.

São defeitos que não retiram o brilho desta série, que foi conduzida com bastante consistência até o seu fim. O climax da série mostrou Sento fazendo o máximo para salvar a todos, mas não se limitando a simplesmente derrotar o vilão. A solução final de Build, a verdadeira fórmula para a vitória, envolvia ir muito além disso.

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Fora a melhor declaração de bromance: “Porque o Banjo e eu somos a Melhor Combinação!”

Extras

A série rendeu dois filmes: Heisei Generations, um crossover que reuniu Build, Ex-Aid e vários outros Kamen Riders da era Heisei; e Be The One, o filme que introduziu o Kamen Rider seguinte, Zi-Oh. E introduzir o protagonista da próxima série já é uma tradição da franquia: o próprio Kamen Rider Build teve sua estréia em um dos filmes de Ex-Aid, além de aparecer em Another Ending. Vários Riders estrearam em um filme antes de aparecerem em suas próprias séries.

Confira o trailer de Zi-O. Build e Banjo terão uma participação na série.

Kamen Rider Build rendeu tanto, que também teve uma minissérie especial sobre o Rogue, além de vários mini-especiais para a web, como o Curso de Transformação, além de episódios mostrando as melhores combinações.

Infelizmente, a situação dos tokusatsu se assemelha muito à situação dos animes na década de 90 e meados de 2000: uma total dependência dos fansubers para quem realmente quer acompanhar tais séries. Não que isso seja desvantagem: os fansubers dedicados ao gênero produzem bastante e são tão dedicados quanto os de anime. Quem quiser conhecer esse tipo de série, não terá dificuldade em material.

O ideal seria torcer para que a série Kamen Rider Amazons atraia fãs, pois a mesma agora passa no serviço por streaming da Amazon(que concindencia). Será que com isso e o sucesso do filme do Jaspion poderíamos ter uma nova febre de tokusatsu no Brasil?

Só o tempo dirá.

 

Erico Campos
Formado em administração e radiologia, professor por vocação e geek de coração!