Não deixe de conferir nosso Podcast!

Música, atitude, ditadura e história brasileira que você deveria conhecer

O músico Sérgio Ricardo quebra seu violão durante o III Festival de Música Popular Brasileira, de 1967 e você deveria conhecer essa história!

O músico Sérgio Ricardo quebra seu violão durante o III Festival de Música da Record, em 1967, e você deveria conhecer essa história!

Tava aqui trabalhando em uns desenhos no computador e escutando umas músicas. Com a miscelânea habitual das indicações do youtube, comecei ouvindo Ian Gillan no Black Sabbath, depois passei por 1 hora de Belchior e acabei chegando em um show de 1967, do histórico festival da Record. Não me pergunte como funcionou a ordem a lógica dessa seleção.

Decidi assistir ao show muito mais pela curiosidade histórica do que por interesse musical. Já estava ali com 30 minutos de som e descobrindo muitas coisas curiosas, como o fato de que Os Mutantes (de Rita Lee) acompanhou o jovem e incrivelmente desconcertado Caetano Veloso em sua famosa “Alegria, Alegria”, escutei o Gilberto Gil, Elis Regina cantando Dori Cayme e Nelson Motta, além de um ou dois completos desconhecidos para mim, que deixaram o palco do festival sob gritos empolgados de “já ganhou”. Pra você ver…

De repente, o anfitrião do palco anuncia que o próximo músico a se apresentar havia mudado o arranjo da sua canção e a plateia começa a ficar irritada e a vaiar. Sérgio Ricardo, que desconhecia completamente, para completar o quadro de minha triste ignorância, entra no festival sob urros depreciativos e tenta, durante vários minutos pedir paciência ao público, que tentassem ouvir o que ele queria cantar.

O músico ameaçou sair, dizendo que não cantaria naquelas condições, enquanto eu ficava atônito tentando entender o porquê do público repudiar tanto o que aquele músico queria dizer, afinal ele havia passado por concorridas eliminatórias para chegar até aquela disputada final com sua música “Beto bom de bola”.

Ele começa sua canção mesmo sem conseguir o respeito do público e, depois de pouco tempo, após reclamar que não conseguia sequer ouvir o tom da música em seu retorno, desistiu de concluir sua apresentação. “Vocês ganharam!”, gritou contra o público e deixou o palco não sem antes destruir seu violão contra um banquinho que estava ao seu lado, numa atitude digna que antecederia os melhores punk rockres que viriam existir.

É claro que fui ao google pesquisar sobre isso tudo. Não fiz uma longa pesquisa, apenas o que 10 minutos de internet me permitiu antes de vir compartilhar essa experiência com vocês. Ao que tudo indica, o público presente criticou Sérgio Ricardo porque esperavam, para aquele festival, músicas mais engajadas contra a ditadura militar que estava no poder, e “Beto bom de bola” era sobre um jogador de futebol que vira herói do Brasil após sua participação vitoriosa numa copa do mundo.

Faz todo sentido! A gente aprende nas aulas de história que os Festivais da Record sempre foram um suspiro de inteligência da cultura nos primeiros anos do governo militar. Entretanto, as vaias contra Sérgio Ricardo eram burras, como toda “censura” costuma ser, isso porque sua música, como tantas outras do período, se utilizava de sutis críticas que estavam submersas nas entrelinhas.

O músico Sérgio Ricardo quebra seu violão durante o festival de musica Popular Brasileira, de 1967. Fotos: Arquivo/AE. Pasta: 40.400

Em sua música, Beto era um jogador de futebol fictício, que ajudou o Brasil a vencer uma Copa do Mundo, atingiu o estrelato, e que foi esquecido. Na segunda parte da canção, o autor conclui com argumento que remete, discretamente, a uma crítica contra a ditadura. Segue a letra:

“Quando bate a nostalgia
Bate noite escura
Mãos no bolso e a cabeça
Baixa, sem procura
Beto vai chutando pedra
Cheio de amargura
Num terreno tão baldio
O quanto a vida é dura
Onde outrora foi seu campo
De uma aurora pura
Chão batido pé descalço
Mas sem desventura
Contusão, esquecimento
Glória não perdura
Mas,
Se por um lado o bem se acaba
O mal também tem cura

(Bis) – É, é, é ou não é
Até parece o Mané

Homem não chora
por fim da glória
Dá seu recado
enquanto durar sua história.”

Seria a glória do passado os anos anteriores à ditadura? Lembrem-se que estamos falando de 1967 e o Brasil da ditadura ainda não havia ganho sua copa no México, de 1970. Esses tempos de vitória remontam a 1958 e 1962, os dois títulos de copa do mundo que o Brasil tinha ganho até então.

A nostalgia destes tempos áureos encontrava apenas a atual “noite escura”? Não se pode ignorar que 8 destes 16 versos da segunda parte terminam com palavras que rimariam com “ditadura”. Este é o tipo de inteligência que se espera de autores que lutam contra a ignorância e a truculência de um Estado autoritário. Entretanto, o público não percebeu e, mesmo aos gritos, Sérgio Ricardo não conseguiu se fazer entender.

Segundo o jornal Estadão do dia seguinte ao ocorrido, Sérgio Ricardo disse que o público do Festival era composto de uma burguesia selvagem, com apenas um aparente verniz de civilidade, e que era incapaz de fazer algo pelo país além de superficiais aplausos ou vaiais. Segundo o músico, o artista brasileiro deveria ir mais às fabricas e aos campos do que em locais como o teatro Record.

sergio ricardo festival record 1967 quebra violão em protesto contra o público que não entendeu sua música contra a ditarura

É muito cômodo opinar daqui, dispondo do confortável assento provido pelo distanciamento histórico, e interpretar “Beto bom de bola” como mais um exemplo do genial subterfúgio artístico contra a ditadura militar e condenar a postura do público, que impediu o músico de se apresentar. Apenas, também recomendo a perspectiva de que o público, à sua maneira, louvável ou não, foi intolerante a uma música sobre futebol apenas porque estávamos há quase 4 anos nos afundando no mais viscoso lodo do regime militar, que engrossaria no ano seguinte, com a instauração do AI-5.

E o que mais me impressiona nisto tudo é que esse episódio merecia ser mais conhecido. É tão curioso e tão pop, por conta de tantas figuras importantes da música brasileira que estão presentes. É tão icônica e tão memorável, mas a memória coletiva brasileira, assim como a indústria pop da informação e entretenimento, não consegue elevar casos assim, como esses, ao conhecimento popular.

Não existe mitificação popular da história brasileira, exemplos assim não encontra eco na representação cultural, não existem filmes, séries ou quadrinhos sobre isso. A narrativa brasileira não consegue encontrar seus ícones pops. Fica a reflexão.

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos