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Resenha | Acre, de Lucrecia Zappi (Editora Todavia)

Oscar ama Marcela que amou Washington mas fugiu com Nelson. Anos depois, Oscar e Marcela estão casados e morando em Vila Buarque, São Paulo, vizinhos de D. Vera, mulher solitária que tem sua rotina alterada com o retorno abrupto do filho de quem sempre falou, mas ninguém conhecia: Nelson. Vindo do Acre, após anos sem qualquer contato, recebe o acolhimento materno, que nada pede, nada pergunta; apenas espera que nunca mais se vá.

E assim, aos poucos, se refaz a ciranda do passado que tanto atormentou Oscar, reacendendo dolorosas memórias. Mas então nos perguntamos: Marcela ama Oscar? Essas e outras questões são trabalhadas no romance Acre (editora Todavia, 208 páginas, preço sugerido R$ 54,90), de Lucrecia Zappi, em sua segunda incursão na prosa de longa alcance.

Recuperando vivências e lugares de sua própria infância, Lucrecia cria uma narrativa que se ambienta no centro de São Paulo, entre o real e o claustrofóbico, dialogando passado e presente num urbanismo latente. As páginas quase exalam o calor do asfalto e concreto em algumas partes, ganhando frescor úmido e salgado quando alterna o cenário com Santos, em rememorações da juventude de nossos protagonistas e que nos põem a par dos eventos que os marcaram para sempre.

Assim sabemos que Oscar, com a mãe doente, é levado para passar uns tempos na casa de Tuca, uma amiga da família. Lá, encontra no surfe um refúgio e um meio de socialização, até que seu caminho cruza com Nelson, outro exilado da capital paulista, e Marcela, uma nativa por quem logo se encanta.

No presente, temores se seguem à medida que laços são reatados numa sucessão de episódios e equívocos. E se Dom Casmurro nos ensinou algo é que toda afirmação é antes de tudo uma questão de perspectiva do narrador, aqui restam poucas dúvidas ao leitor, mesmo o complacente. Procuramos então compreender como a incompletude de Oscar delimita o compasso da história.

E, além, a fraqueza marcada na carne de cada personagem. Queiramos ou não, é o eixo moral que guia nossos olhos como expectadores da trama, diante da barbárie que Nelson revela, da intempestividade de Adriano, o síndico, ou das omissões de Marcela. Destaque para os diálogos, fluidos e espontâneos, dando realidade às falas. Lucrecia é uma autora que merece atenção.

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br