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Resenha | Na Pior em Paris e Londres, por George Orwell (Companhia das Letras)

Às vezes, certos autores ficam marcados entre os leitores por uma ou duas de suas obras, eclipsando as demais. É o caso de F. Scott Fitzgerald, sempre lembrado por O Grande Gatsby, mas pouco mencionado por Suave É A Noite, considerado por ele mesmo seu melhor romance.

Outro exemplo que me ocorre é George Orwell, responsável por registrar no imaginário coletivo a ideia do Grande Irmão e os demais presságios que imperam na era da vigilância através do romance 1984. Poderia falar também A Revolução dos Bichos, obra seminal que usa da fábula um alerta sobre os regimes totalitários. O que, de certa forma, é uma pena, uma vez que Orwell tem muito a oferecer a quem explorar sua produção literária. É o que prova a leitura de Na Pior em Paris e Londres.

O autor ainda era Eric Arthur Blair quando largou um bom emprego numa colônia britânica na Ásia (vivia-se os tempos do neocolonialismo) e voltou à Inglaterra decidido a seguir a carreira de escritor. Pulando de um emprego para outro, e morando de forma precária, decidiu conhecer melhor as regiões pobres de Londres e arredores, movido por ideias socialistas de conhecer verdadeiramente o proletariado. Tempos depois, na primavera de 1928, muda-se para Paris, com a intenção de aprender francês e trabalhar seus projetos literários.

Viveria nesse período todas as experiências que resultaram nesse livro. Tal como relata na obra, após o fracasso do projeto parisiense, volta para Inglaterra com a promessa de um emprego e vida nova, mas a situação não se firma e acaba voltando à pobreza.

Na Pior em Paris e Londres resulta assim num longo relato com forte teor autobiográfico em que Eric Blair discorre com minúcias sobre os tempos de dureza que viveu nas duas cidades, de tal forma realista e comovente que é impossível largar sua leitura. Foi quando de sua publicação que nasceu o pseudônimo George Orwell, por sugestão do editor.

O livro se estrutura em capítulos curtos, abrindo com descrições de cenários e tipos que povoam o bairro onde Orwell morava em Paris, num estilo naturalista. A princípio tirando seu sustento de artigos ocasionalmente publicados nos jornais e das aulas de inglês que dá, sofre um golpe quando suas reservas são roubadas por outro morador de seu prédio, que foge em seguida. É quando a tônica da obra entra se estabelece, ao retratar de maneira inexorável a fome e a pobreza em que o protagonista mergulha.

A sujeira parece atingir o leitor. A falta de comida começa a doer em nosso próprio estômago. Tal a força que Orwell coloca no seu drama. Escrevendo sem grandes hipérboles, na sua economia de palavras relata profundamente a situação enfrentada pelo extrato mais baixo da sociedade. Nos capítulos seguintes, acompanhamos seu périplo em Paris atrás de emprego, de uma moeda; de um pedaço de pão que seja.

Paris, 1928: os dois lados de uma cidade que Orwell conheceu tão bem. 

Na companhia de Boris, um russo com quem trava relações, alcança um emprego como “plongeur” num restaurante, um ajudante geral, se submetendo a uma rotina desumana de trabalho. Alternando com essas passagens, o autor transcreve conversas com pessoas que conhece, miseráveis com outras histórias de fome e um pouco de fortuna, que logo lhes escapa.

De volta à Londres, uma expectativa de emprego não se concretiza e Orwell envereda pela vida nas ruas, andando com os mendigos e sentindo na pele o lugar que a sociedade reserva para os desafortunados.

Dessa forma, Na Pior em Paris e Londres se revela uma longa digressão sobre a natureza da pobreza e das injustiças e incoerências do sistema. Uma radiografia da classe trabalhadora com suas jornadas de 15 horas diárias, povoada por indivíduos invisíveis para o resto da população.

O autor preserva na medida do possível a individualidade dos personagens em cena, trazendo vozes que vão além do estereótipo que essa massa pobre encara. Em sua etnografia da realidade parisiense e londrina da época, produz pérolas como o capítulo onde aponta a lógica perversa do capitalismo quanto à manutenção das classes sociais ou quando reflete sobre questões de higiene no seu ambiente de trabalho, algo aparentemente ignorado pelos demais.

A obra, portanto, carrega uma atualidade incômoda, quase um século depois de escrita, sendo leitura obrigatória pela consciência como aborda a pobreza, o abandono em que pessoas se encontram às ruas, a natureza perversa que o capitalismo por vezes adota e a qualidade de uma escrita mordaz e precisa.

“Se perguntarem a um homem rico que seja intelectualmente honesto sobre a melhoria das condições de trabalho, ele dirá algo assim: ‘Sabemos que a pobreza é desagradável; na verdade, uma vez que é tão remota, gostamos um pouco de nos angustiar com a ideia de sua desagradabilidade. Mas não esperem que façamos alguma coisa a respeito dela. Temos pena de vocês (…), mas lutaremos como demônios contra qualquer melhoria de sua condição. (…) O atual estado das coisas nos convém e não vamos assumir o risco de libertá-los, nem mesmo de uma hora extra por dia’.” (p. 137)

 

George Orwell – Na pior em Paris e Londres

Editora: Companhia das Letras

256 páginas

Preço sugerido: R$ 49,90

 

 

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br