Quarta, 02 De Janeiro De 2019

Anuncie Aqui!

Cr√≠tica | Roma: Alfonso Cuar√≥n nos convida para sua inf√Ęncia e mostra o que existe dentro de nossa alma.

Roger Ebert escreveu certa vez que ‚Äúos filmes s√£o m√°quinas que geram empatia‚ÄĚ, e nada encapsula esse sentimento melhor do que Roma. O diretor Afonso Cuar√≥n trocou a vastid√£o √©pica do espa√ßo por uma hist√≥ria √≠ntima sobre sua pr√≥pria inf√Ęncia e as mulheres que o criaram. Quer voc√™ tenha crescido em uma situa√ß√£o parecida, ou apenas tenha um cora√ß√£o batendo ai dentro, Roma puxa todas as cordas certas nos momentos certos para fazer com que voc√™ se sinta como se conhecesse essa fam√≠lia a vida toda.

Cuar√≥n disse numa entrevista na pesquisa que fiz para escrever essa cr√≠tica que a Roma √© 90% baseada em sua pr√≥pria inf√Ęncia. N√≥s seguimos um cap√≠tulo na vida de Cleo (Yalitza Aparicio), uma empregada dom√©stica no bairro de classe m√©dia de Roma, na Cidade do M√©xico, no in√≠cio dos anos 70. Ela trabalha para uma fam√≠lia com tr√™s garotos e uma garota. Cleo √© mais do que apenas uma empregada, na maioria das vezes agindo como uma m√£e substituta para os filhos na aus√™ncia de seus pais. Ela que coloca as crian√ßas √† noite para dormir, veste cada um e garante que eles estejam prontos para a escola todo santo dia. Ela tamb√©m tem a paci√™ncia de uma santa, como quando os pais est√£o realmente na casa, eles s√£o um lembrete constante de que Cleo n√£o √© realmente uma parte de sua fam√≠lia. Apesar deles serem gentis com Cleo, ela ainda √© apenas “a empregada que ajuda”. Embora os latino-americanos se identifiquem especialmente com a rela√ß√£o entre governantes e as fam√≠lias para as quais trabalham, Cuar√≥n se certifica de que, independentemente de suas experi√™ncias de vida, voc√™ continuar√° cuidando dessa fam√≠lia.

 

Tudo muda para a Cleo depois que um caso que ela tem com um cara metido em artes marciais resulta em uma gravidez. Ao mesmo tempo, a matriarca da família, Sofia (Marina de Tavira), descobre que as viagens do marido não são apenas de negócios. Apesar de este ser um filme essencialmente autobiográfico, Cuarón, que também escreveu Roma, ignora a história das crianças. Em vez disso, ele coloca seu foco em Cleo e Sofia e explora o tema dos homens evitando suas responsabilidades e deixando as mulheres para lidar com carga de problemas que cada um deixou para elas.

“Roma”, de Alfonso Cu√°ron

 

N√£o satisfeito em apenas escrever e dirigir, Alfonso Cuar√≥n tamb√©m filmou o filme, trabalhando pela primeira vez sem seus amigos e diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, os dois s√£o parceiros desde O Prisioneiro de Azkaban. A c√Ęmera age como um fantasma do presente, olhando para o passado. Roma raramente usa close-ups, em vez disso, mant√©m o p√ļblico distante. Ainda ganhamos assinaturas longas das cenas de Cuar√≥n. Se voc√™ n√£o sabe o que √© isso, no filme s√£o aquelas panelas laterais constantes para mostrar os arredores de Cleo, for√ßando-nos a testemunhar os eventos, incapazes de mudar nada. O filme foi todo gravado por uma c√Ęmera de 70 mm com pel√≠cula de 65 mm (2,6 polegadas) de largura. Tudo √© deslumbrante, uma coisa bonita de se assistir, √© detalhe demais, fotografia ampla. E talvez isso seja tamb√©m o dilema do filme: o filme exige que seja visto diversas vezes para v√™-se tudo que o Cuaron colocou em cada cena, al√©m disso, a composi√ß√£o em preto e branco do filme deve ficar muito interessante de assistir numa tela grande de cinema. N√£o existe m√ļsica no filme, apenas avi√Ķes passando no fundo do plano.

 

O macro para o micro se torna mais percept√≠vel no decorrer do filme. Enquanto a hist√≥ria principal √© toda sobre Cleo vivendo sua gravidez, somos apresentados com eventos tr√°gicos e os prim√≥rdios de uma das mudan√ßas sociais mais marcantes da hist√≥ria do M√©xico, isso tudo em segundo plano. Cleo √© de origem Mixteca, um povo amer√≠ndio da fam√≠lia lingu√≠stica Otomanque, habitantes dos atuais estados mexicanos de Oaxaca, Guerrero e Puebla. Metade de seu di√°logo √© falado neste dialeto, o que leva a uma explora√ß√£o da divis√£o de classes e como a popula√ß√£o ind√≠gena do M√©xico e da Am√©rica Latina √© tratada de forma diferente. Um tema central √© o da empatia, e as fam√≠lias improvisadas se formam a partir da trag√©dia. √Ä medida que a gravidez de Cleo se aproxima do fim, seu relacionamento com a fam√≠lia se desenvolve. Ao mesmo tempo, Cuar√≥n mant√©m pequenos momentos em segundo plano, como um terremoto, um inc√™ndio florestal ou uma briga de rua que explode quando o filme chega √† sua recria√ß√£o do massacre de Corpus Christi. Do nada, o filme explora esse protesto estudantil de 1971 que resultou numa trag√©dia quando as tropas paramilitares come√ßaram a matar estudantes que estavam numa manifesta√ß√£o pela liberta√ß√£o de presos pol√≠ticos e por mais investimentos em educa√ß√£o. √Č uma sequ√™ncia de parar o cora√ß√£o com uma poderosa resson√Ęncia contempor√Ęnea.

 

Com Roma, Alfonso Cuarón assumiu o papel de um curador de arte da história humana, cuidadosamente selecionando capítulos de sua vida e reorganizando-os em uma poderosa fábrica de empatia. Cada quadro pode ser pendurado como uma pintura, cada performance parece natural e poderosa. Yalizta Aparicio tem um dos olhares mais tristes que já vi no cinema. Ela não fala muito no filme, mas seu olhos…ela pode ser apenas uma iniciante como atriz, mas nunca mais será esquecida enquanto o cinema existir.

“Roma”, de Alfonso Cu√°ron

 

Veredito

 

Roma é algo grandioso, uma história poderosa e pessoal sobre família. A exploração de revoltas políticas, desigualdades de classe e gênero fazem deste um filme importante, mas o fato de permanecer sempre baseado em sua história pessoal faz de Roma um filme emocionante e emocional, filmado com maestria por um veterano diretor que finalmente criou sua obra-prima.

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

Posts Relacionados
%d blogueiros gostam disto: