Segunda, 12 De Novembro De 2018

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Resenha | Mister No Especial nº 1: Magia Negra (Editora 85)

Aos poucos a editora 85 vai se firmando como a segunda casa Bonelli no Brasil, contemplando os personagens não publicados pela Mythos. Primeiro resgataram Dampyr, continuando inclusive do ponto onde a Mythos havia interrompido o título. Agora, outro herói bonelliano que dá as caras novamente entre nós é Mister No, através da série original Mister No Speciale.

A aventura que inicia esse novo ciclo do personagem nas bancas e livrarias brasileiras traz todos os elementos que caracterizam o personagem e o torna tão identificável para nós. Primeiramente, é bom lembrar que suas tramas se passam no Brasil, com ambientação nos anos 1950. Jerry Drake é um piloto americano que, após viver os horrores da 2º Guerra Mundial decide se isolar em selvas amazônicas, adotando a alcunha de Mister No, dado sua fama de ser uma pessoa difícil de lidar, sempre se colocando contra o sistema.

Ocasionalmente, suas tramas acabam se “estendendo” a outros pontos do mapa, como nessa que ora resenhamos, ambientada em Salvador. Mister No é contratado por um compatriota que procura desesperadamente o filho desaparecido na região do rio Tapajós, embora já creia que ele esteja de fato falecido. Por isso, procura um médium que prometera evocar o espírito de seu filho e assim elucidar seu paradeiro.

Mas a sessão espírita é interrompida pelo professor Polansky, um estudioso americano que viaja o mundo desmascarando os ditos charlatões que se apresentam como mestres de artes místicas e espirituais. Após a revelação da farsa, Polansky contrata Mister No para que ele o guie pelos terreiros da região e assim compreenda melhor as religiões e crenças de matriz africana, como o candomblé, umbanda e afins.

Nosso herói fareja as possíveis confusões que o professor causaria com seu intento de “denunciar” e “desmascarar” tudo o que não for estritamente científico, e, embora reticente, aceita o trabalho como uma forma até de controlar o impulso exaltado de Polansky. Mas sua boa vontade pelos ares quando, mesmo orientado a ser discreto, o estudioso americano decide atacar os presentes um terreiro de catimbó, com a cerimônia em pleno curso.

Levados pela polícia para a cadeia, a embaixada americana se mobiliza pela soltura de ambos, embora Polanski seja solto alguns dias antes. Ao finalmente ser liberado da custódia, Mister No é procurado pelo diplomata para que encontre e traga de volta o quanto antes o professor, que sumira pelos subúrbios em suas investigações sobre as crenças afro. É nessa jornada final que No será forçado a encarar forças sinistras que tentava evitar a todo custo.

O roteiro é de Guido Nolitta, pseudônimo usado pelo lendário editor Sergio Bonelli e a arte fica por conta de Roberto Diso. Diso é conhecido dos leitores brasileiros pelos diversos trabalhos que realizou com Tex. Mas se seu traço não é benquisto pelos fãs do ranger, aqui se apresenta mais condizente com a proposta, embora a pobreza na criação de cenários seja evidente e deixe a caracterização de Salvador um pouco vaga em algumas passagens.

Já Bonelli, que costumava viajar com frequência para nosso país, mostra domínio sobre nossos costumes e modo de vida. Em suas falas, Mister No muitas vezes verbaliza um discurso de ojeriza aos preconceitos que os “gringos” alimentam sobre nós, contemporizando nossa cultura. Há, assim, uma honestidade pouco usual num quadrinho estrangeiro ambientado no Brasil.

A preocupação na forma como os temas são apresentados é percebida acentuadamente na “preleção” que No faz ao discorrer sobre as religiões e crenças de matriz afro em sua conversa inicial com o professor Polanksy. Cada uma é nomeada de modo a evitar simplismos, não jogando todas na vala comum da “macumba”.

É, portanto, uma leitura muito válida e recomendada a quem se interesse pelo personagem. A edição sai no formato original fumetti, com capa cartão e miolo em papel off set de boa gramatura. Fica a expectativa pelo próximo número, já anunciado pela editora.

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