Segunda, 31 De Dezembro De 2018

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Sobre a Tetralogia Napolitana, de Elena Ferrante

Eu ouvi falar, pela primeira vez, na Elena Ferrante por conta de uma pol√™mica envolvendo sua identidade. Eu nem sabia sobre a autora, e j√° descobriria que o nome era inventado, usado pra se “apagar”, e que tinha gente indo atr√°s de descobrir quem era o ser por tr√°s do pseud√īnimo.

Capa dos livros, pela Editora Biblioteca Azul

Aqui na Quinta Capa já falamos um pouco sobre essa polêmica, numa resenha sobre um texto de Domenico Starnone, marido de Anita Raja, que é apontada como a identidade secreta de Elena.

Discuss√Ķes √† parte sobre quem √© ou n√£o √© Elena Ferrante, e o problema √©tico em retirar algu√©m √† for√ßa de seu esconderijo, acabei me interessando pela obra famosa. Eu tive algum estranhamento com o nome do livro. “A amiga genial” passou a mim uma ideia de frivolidade que n√£o me interessou muito, confesso. Contudo, as amigas metidas com literatura todas j√° tinham lido e falavam bem demais. Eu costumo confiar no gosto de certas pessoas.

Descobri que se tratava de uma quadrilogia. E os nomes dos outros livros n√£o me deixavam angustiada. Quando me apareceu a oportunidade de ter os quatro livros, n√£o restou d√ļvida de que eles pulariam qualquer fila.

Comecei o “A amiga genial” com medo do desconhecido e acabei encantada com as amigas Elena Greco e Rafaella Cerullo. Agora, j√° √≠ntima, chamarei de Lenu e Lila. O livro √© narrado por Lenu, que decide contar a hist√≥ria da amiga como uma forma de contrari√°-la e fazer um registro dessa pessoa extraordin√°ria. Ela come√ßa, ent√£o, pelo come√ßo: a inf√Ęncia em que se tornaram amigas.

Lenu vai contando hist√≥rias de forma n√£o linear e, aos poucos, a gente vai percebendo que contar a hist√≥ria de Lila √© contar a pr√≥pria hist√≥ria da narradora. As duas possuem uma amizade estranha, formada por la√ßos que misturam bons e maus sentimentos rec√≠procos. √Č essa rela√ß√£o que as impulsiona a viver, como uma presta√ß√£o de contas a fazer. Principalmente Lenu, uma garota que se preocupa em agradar √†s opini√Ķes e tem em Lila algu√©m dos mais elevados padr√Ķes, raz√£o pela qual tenta se provar √† altura. Lila √© descrita por Lenu como uma criatura selvagem, dotada de uma intelig√™ncia absurda e uma capacidade de fazer o mal. Mais crescida, tamb√©m de uma beleza inigual√°vel. A garota se sente atra√≠da pelo magnetismo da outra e elas acabam se aproximando.

Inevitavelmente eu irei trazer fatos sobre os livros, embora n√£o entre em detalhes. Ent√£o, aviso: CONT√ČM SPOILER. Leia por sua conta e risco.

Capa de “A amiga genial”

A AMIGA GENIAL

No primeiro livro da s√©rie acompanhamos a inf√Ęncia dif√≠cil num bairro de N√°poles, na It√°lia. As meninas, pobres, acabam se encantando com a possibilidade de se tornarem escritoras ricas depois de ler um livro chamado “Mulherzinhas”. Como em v√°rias ocasi√Ķes, o sonho parte, na verdade, de Lila e Lenu se encanta com as potencialidades que a amiga visualiza.
Em meio √†s dificuldades que ambas t√™m de seguir nos estudos e as inquieta√ß√Ķes afetivas, com a chegada da adolesc√™ncia, somos apresentados aos amigos, √†s fam√≠lias, √† viol√™ncia do lugar, aos conflitos locais e tamb√©m ao contexto pol√≠tico de uma It√°lia p√≥s 2¬į Guerra Mundial. O livro aborda tamb√©m quest√Ķes importante sobre costumes, principalmente em rela√ß√£o √†s exig√™ncias √†s mulheres, como a virgindade, casamento e viol√™ncia sexual.

Embora extremamente envolvida, a narrativa do livro me fez sentir grande inc√īmodo. √Č uma obra muito densa e traz relatos dif√≠ceis de lidar. Precisei fazer uma pausa antes de continuar a leitura da quadrilogia, mas n√£o consegui tirar as duas amigas da cabe√ßa.

HIST√ďRIA DO NOVO SOBRENOME

O segundo livro, “Hist√≥ria do novo sobrenome”, traz relatos sobre a vidas das duas a partir dos 16 anos, quando Lila se torna a Sra. Carracci, ao casar-se com St√©fano, um jovem rico que proporciona ascens√£o social a ela e a auxilia a livrar-se de Marcello Solara, um pretendente da Camorra (uma organiza√ß√£o criminosa italiana) e a impulsionar os neg√≥cios da fam√≠lia Cerullo, quando Lila, obrigada a trabalhar, abandonando os estudos, decide desenvolver sapatos e dar um salto na sapataria do pai. Os relatos sobre a aproxima√ß√£o dos dois, Lila e St√©fano, ocorre ainda no primeiro livro, que termina com a cerim√īnia de casamento nos trazendo expectativas felizes, apesar do des√Ęnimo de Lenu, que almeja se equiparar a amiga em tudo. Estudava para competir com ela, arruma um namorado pra n√£o ficar pra tr√°s.

Capa de “Hist√≥ria do novo sobrenome”

Este segundo livro nos mostra que a amizade de Lenu e Lila tem muitos pontos de aproxima√ß√£o e afastamento, tanto em rela√ß√£o aos caminhos que tomam quanto √† intimidade que as duas desfrutam. √Č tamb√©m um balde de √°gua fria nos mostrando que a vida √© cruel. Lenu, continua estudando, mesmo com as dificuldades financeiras; Lila, bem de vida, n√£o pode mais estudar e finge desinteresse, enquanto sofre com viol√™ncia dom√©stica e press√£o pela maternidade. √Č brutal observar que a menina inteligente, cruel e capaz de tudo acaba se tornando uma jovem que tem sua vida redimensionada em fun√ß√£o do casamento.

Nada escapa aos relatos de Lenu: as ilus√Ķes amorosas, as trai√ß√Ķes, as ambi√ß√Ķes. Em certo momento, a garota narradora se v√™ envolvida numa estranha rela√ß√£o com o seu amor plat√īnico, Nino Sarratore, e a amiga que, contrariando toda a expectativa mais uma vez, se v√™ entregue a um relacionamento amoroso com uma figura problem√°tica.

Enquanto isso, ap√≥s abdicar dos pr√≥prios interesses pela estima em rela√ß√£o a Lila, Lenu luta pra ascender socialmente por meio dos estudos, indo fazer um curso superior em outra cidade e se envolvendo em um mundo diferente do seu. Nesse ponto, os relatos de Lenu sobre Lila s√£o de “ouvir dizer”, pois se distanciam enormemente. E √© Lenu quem se torna escritora, de fato, sem Lila, ainda que a outra esteja sempre presente em seu inconsciente.

Capa de “Hist√≥ria de quem foge e de quem fica”

HIST√ďRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA

O terceiro livro, “Hist√≥ria de quem foge e de quem fica”, traz um foco maior em Lenu, que est√° distante de Lila. Enquanto Lenu se casa e Lila vive um per√≠odo dif√≠cil, p√≥s separa√ß√£o de Nino, com um filho, nos vemos envolvidos com discuss√Ķes politicas que tensionam a It√°lia na d√©cada de 60. As duas amigas se v√™em inseridas nesses conflitos por meio das outras amizades do bairro e da pr√≥pria Lila, que se v√™ em situa√ß√£o de explora√ß√£o na f√°brica onde trabalha.

Enquanto Lila tenta reconstruir a pr√≥pria vida, Lenu tem seu momento de “chutar o pau da barraca” influenciada pelo ambiente mais liberal em que circula, enquanto luta pra se firmar como escritora e com os dilemas internos por conta de suas aproxima√ß√Ķes com o feminismo e a situa√ß√£o em que se coloca ao se envolver com Nino, apesar dos alertas de Lila. Lenu exibe, tamb√©m, os conflitos que t√™m com a maternidade, na dificuldade em criar e se dedicar √†s filhas, conciliando trabalho e amor, bem como com o papel feminino no trabalho dom√©stico e sua rela√ß√£o dif√≠cil com a m√£e.

HIST√ďRIA DA MENINA PERDIDA

O √ļltimo livro, “Hist√≥ria da menina perdida”, j√° me causou grande apreens√£o pelo nome. Neste volume, Lenu j√° exibe alguma for√ßa diante das press√Ķes externas, busca equilibrar o relacionamento com o indispon√≠vel Nino, e tenta lidar com os dilemas de sua fam√≠lia a partir das viv√™ncias de seus irm√£os: a mais nova se envolve com os criminosos Solara, arrastando os irm√£os. Aqui Lenu tem consci√™ncia da dimens√£o que pode tomar o problema com a depend√™ncia qu√≠mica e se preocupa com a fam√≠lia, de quem esteve distante, como forma de dar conforto √† m√£e, de quem se aproxima por conta de seu adoecimento.

A rela√ß√£o de Lila e Lenu volta a ser de grande proximidade, com o estreitamento de la√ßos a partir do momento em que ambas engravidam novamente e se tornam vizinhas. Os conflitos com os filhos de ambas e as rela√ß√Ķes intercambi√°veis se torna o centro da narrativa, tendo como plano de fundo o sucesso profissional das duas amigas – Lenu uma escritora renomada e Lila uma empres√°ria – que acabam se distinguindo no bairro. Todo o equil√≠brio acaba sofrendo um grande abalo com a perda da menina do t√≠tulo, que acaba reverberando nas duas amigas, em seus filhos, no bairro. A rela√ß√£o das duas se mostra, ainda, de depend√™ncia, afeto e manipula√ß√£o.

Capa de “Hist√≥ria da menina perdida”

O fim da narrativa me faz sentir um vazio enorme, de modo que me impulsiona a escrever sobre a obra. Um pouco como Lenu, que acaba colocando no papel o que vive.

A quadrilogia napolitana de Elena Ferrante n√£o √© apenas o relato de amizade dif√≠cil e permanente entre duas mulheres marcadas pelo lugar de onde vieram e para onde desejavam ir, mas tamb√©m uma reflex√£o sobre a sociedade, sobre as desigualdades sociais, sobre o valor que atribu√≠mos aos estudos como forma de distin√ß√£o, sobre o papel do Estado, sobre a import√Ęncia da mobiliza√ß√£o social, sobre quest√Ķes de g√™nero… sobre a complexidade da vida, do inesperado e o que podemos fazer com o que temos.

Quem é Mal√ļ P√īrto

Quer ser alguém importante na história do mundo, mas tem preguiça. Costuma ser do contra, gosta de gifs de animais, nasceu pras artes e foi trabalhar com coisas chatas pra não estragar os hobbies e nem passar fome.

  

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