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CRÍTICA| LINDINHAS (MIGNONNES, FRANÇA, 2020).

Confira nossa crítica ao Filme "Lindinhas" e entenda se há motivo para a polêmica em torno dele.

“Lindinhas” (Mignonnes, França, 2020), escrito e dirigido por Maïmouna Doucouré, narra a história de Amy, uma garota de 11 anos de origem senegalesa que se junta a um grupo de dança na disputa por uma competição local.
O filme participou do 36º festival de cinema de Sundance, tendo conquistado o prêmio de melhor direção na competição de ficção internacional. Com os direitos adquiridos pela Netflix, entrou no catálogo da empresa 09/09/2020.
O filme tem sido marcado por uma grande polêmica, com acusações de que promoveria a sexualização de crianças e estímulo à pedofilia. Há, inclusive, pedidos para remoção do filme do acervo da empresa. Nesse artigo vamos procurar entender a respeito dessa questão e se ela, de fato, se justifica.
Então, de que trata “Lindinhas”?


AMY, UMA MENINA EM CONFLITO


“Lindinhas” narra a história de Amy, uma menina senegalesa de 11 anos que vive com a mãe e o irmão caçula na França. Instalados há pouco tempo, estão à espera do pai da família – que virá acompanhado de sua segunda esposa. A festa de matrimônio, inclusive, ocorrerá já na nova residência da família.
A história se passa num período de grande conflito dentro de Amy. Os motivos são vários: a mudança, a adaptação à nova escola, a busca de amizades e aceitação, a puberdade, a oposição à sua tradição islâmica, a qual não lhe traz liberdade alguma e faz sua mãe sofrer – não é com alegria que ela recebe a notícia do segundo casamento de seu marido. Cada um desses pontos, por si só, geraria bastante impacto na vida de qualquer pessoa. Juntos, são os ingredientes para um turbilhão.
Em meio a tudo isso, Amy vê na dança uma oportunidade de escapar dessa confusão e encontrar seu lugar. O objetivo, junto com suas novas amigas, é vencer um concurso de dança local com seu grupo “Lindinhas”.
Há vários filmes “sessão da tarde” com exatamente essa temática, com belas histórias de crescimento e superação. Mas este não é um deles.
O tema aqui é sério e nos é apresentado de forma quase violenta: a sexualização de meninas.
O ponto do filme é demonstrar que a falta de melhores referências leva essas meninas a acreditarem que a exibição de seus corpos é o caminho para serem aceitas e conquistarem seu espaço – é o que vêem nas redes sociais, o modelo de sucesso.
E tudo o que elas querem é isso, serem vistas e aceitas. Isso se percebe não só pela trajetória da protagonista, que conhecemos bem, mas também por sua amiga e líder do grupo de dança, Angélica – em meio a uma conversa entre as duas, a menina conta a Amy sobre um sonho que tivera na noite anterior, em que seus pais a viam dançar – “se sonhar três vezes, vira realidade?”, pergunta. É triste; ela, afinal, é apenas uma menina que se sente sozinha e com saudades dos pais, que por conta do trabalho pouco podem conviver com a filha.
Levar as coisas às últimas consequências não costuma trazer bons resultados. No decorrer da película vemos Amy mergulhar cada vez mais numa obsessão que torna tudo mais terrível. Curiosamente, o concurso de dança ocorrerá no mesmo dia da festa de casamento de seu pai, e a tensão crescente não é por acaso.
Não vou detalhar mais a história para não estragar a experiência de assistir ao filme. O que ainda posso dizer é que o final faz bastante sentido, e as coisas então passarão a ser diferentes – para Amy e também sua mãe, cuja participação aqui é fundamental. Vale, sim, à pena assistir e refletir.
Visto o filme, nossa próxima parada é entender, afinal, que polêmica é essa que se instaurou em torno dele.


O CONTEXTO DA POLÊMICA


O início da polêmica envolvendo o filme “Lindinhas” veio com a divulgação. A Netflix, ao anunciar o filme em sua plataforma, recebeu acusações de sexualizar as atrizes mirins ao retratá-las em trajes curtos e poses sensuais. A empresa pediu desculpas e mudou a imagem de divulgação, porém, o “estrago” já estava feito.
Após a estreia na plataforma a polêmica ressurgiu nos EUA, inclusive com petições online para a retirada da película do catálogo (para saber mais sobre o desenrolar dessa questão, clique aqui.
No Brasil, o Governo Federal, por intermédio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, pediu a suspensão da veiculação do filme. O Ministério quer também a apuração da responsabilidade pela distribuição e oferta do conteúdo em pedido encaminhado a COPEIJ (Comissão Permanente da Infância e Juventude). A Netflix, de seu lado, defende a permanência em seu catálogo, afirmando que o filme se trata de “um comentário social contra a sexualização de crianças. É um filme premiado e uma história poderosa sobre a pressão que jovens meninas enfrentam nas redes sociais e também da sociedade. Nós encorajaríamos qualquer pessoa que se preocupa com essas questões importantes a assistir ao filme”. Mais sobre a questão você pode conferir aqui.
Mas não para por aí. A organização Templo Planeta do Senhor pediu judicialmente a retirada do filme do catálogo da Netflix, pedido rejeitado pelo magistrado (mais sobre a questão aqui).
Há ainda muita água para rolar sob essa ponte…
Dito isso, resta saber: há motivo para tanta polêmica envolvendo o filme “Lindinhas”?


A POLÊMICA SE JUSTIFICA?


Sim, faz sentido. Mas, ao se pensar a respeito, percebe-se que o objetivo do filme era gerar polêmica para, então, chamar atenção para aquele debate. Talvez não do modo como acabou acontecendo, em decorrência de uma divulgação mal realizada, mas, ao final, obteve-se o resultado – a discussão em torno do filme.
“Lindinhas” não tem por objetivo entreter, mas gerar desconforto, choque. Quando se trata de um tema como sexualização infantil, e se põe crianças em situações em que habitualmente se vêem adultas, a intenção é causar impacto pelo absurdo, pela estranheza – salta aos olhos que aquilo não está certo. Foi essa a maneira que a diretora optou por trazer à tona a discussão.
O risco que se corre quando se é muito explícito é o de o próprio autor retirar parte da força do seu discurso. E aqui acontece algo como em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, em que as cenas de violência da via crucis foram destaque – para parcela do público, acabou-se desviando a atenção do sofrimento de Jesus para focar apenas na crueldade da violência em si – o sentido de aquilo estar sendo retratado ficou em segundo plano.
É questionável em “Lindinhas” a maneira escolhida para retratar certas situações. Expor as atrizes a cenas em que se explora seus corpos é, pode-se dizer, uma forma de fazer com elas o que se está a criticar. E antes que se diga não ser possível fazer de outro modo, o próprio filme, em outros momentos, faz essa abordagem de maneira diferente, sem perder a força.
Além do mais, seria possível tratar de temas tão sérios sem expor as atrizes. Um exemplo clássico está em como Stanley Kubrick fez ao gravar “O Iluminado“. Ele, um diretor de conduta em geral abusiva com os atores, preservou o ator Danny Lloyd durante toda a produção – o intérprete de Dany Torrance, então com 5 anos, sequer sabia que estava em um filme de terror (o diretor o dissera que trabalhava num drama). É, afinal, uma forma de respeitar a criança, o que, pode-se dizer, em alguns momentos faltou em “Lindinhas”.
É até possível tratar de assuntos sérios de forma mais leve, como neste filme. De todo modo, a maneira de abordar o tema é uma escolha de quem conta a história. Gostar ou não, concordar com a crítica ou não, cabe ao espectador – que, para isso, precisa assistir. O absurdo está em querer impedir a circulação da película – deixar de falar sobre o elefante na sala não faz com que ele suma dali. Não é impedindo de se tratar sobre o tema que se resolverá o problema – na verdade, a solução passa exatamente pela conduta contrária, a discussão.
“Lindinhas” está disponível na Netflix.

Emidio Borges
Sou um apaixonado por narrativas. Das florestas da Lua de Endor até as terras submersas de Beleriand, há sempre novas histórias a se descobrir... Ou novos detalhes em velhas histórias!