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Crítica | The Matrix Resurrections (2021)

Sou grato que Lana Wachowski retornar para essa franquia com The Matrix Resurrections, eu adorei o filme, mas parece que o resto do mundo não sentiu a mesma coisa.
Matrix
Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss em The Matrix Resurrections (2021)

Sou grato que Lana Wachowski retornar para essa franquia com The Matrix Resurrections, eu adorei o filme, mas parece que o resto do mundo não sentiu a mesma coisa.

Esta crítica contém spoilers.

No dia 21 de maio de 1999, Matrix estreou nos cinemas brasileiros e eu estava lá, uma semana depois. Eu não consigo mensurar os impactos que o filme gerou em toda a indústria cinematográfica e as grandes referências e novidades que ele trouxe para a cultura pop.

As autoras na época em diversas entrevistas falaram que criaram Matrix baseado em filmes de ficção científica como Blade Runner – O Caçador de Andróides, O Quinto Elemento e principalmente animações japonesas como Akira e Ghost in the Shell.

O Matrix de 1999 nos apresentava um futuro distópico com um enredo bem embasado, que largava na frente de muitos outros representantes do gênero. O fundo filosófico que permeia a dúvida “será que tudo que vivemos é real? ”, aliado a uma estética e mitologia totalmente autorais, fizeram o filme agradar a uma infinidade de públicos: desde aqueles que buscavam uma história “cabeça”, até os que ansiavam por cenas de ação e efeitos especiais de primeiríssima qualidade. Quando Matrix foi lançado, a humanidade estava prestes a cruzar a fronteira do Novo Milênio, e a ansiedade coletiva (quem não se lembra do bug do milênio, ou das profecias de povos antigos sobre o Fim do Mundo?) vivida à época do lançamento também contribuiu para que o contexto fosse bastante bem recebido.

Os mais jovens talvez não se lembrem, mas em 1999, a Internet Banda Larga era impensável no Brasil. Ela só surgiu aqui no ano 2000 e, mesmo assim, demorou bastante para se popularizar. Tendo acesso somente à conexão discada, a figura do Hacker era quase mitológica por aqui – quem tinha nas mãos algum conhecimento sobre informática, era motivo de louvor e curiosidade. O filme soube explorar muito bem esse imaginário, uma vez que Neo (Keanu Reeves) , antes de alcançar o status de O Escolhido por Morpheus (Laurence Fishburne) e sua turma, era um programador que, nas horas vagas, trabalhava ilegalmente, invadindo computadores e roubando dados.

Eu amo trilogia Matrix original das Wachowski e classifico entre as melhores séries de ficção científica da história, mesmo com a  falta de conexões emocionais entre os personagens às vezes. Para uma história que coloca as pessoas contra um mundo controlado por robôs e inteligências artificiais avançadas, sua atenção sobre o que torna a humanidade especial permanece até agora limitada. 

Ação memorável, sequências de luta impressionantes e ideias filosóficas altamente interpretáveis ​​à parte, seus personagens principais para mim, precisavam de mais profundidade humana. Como descrever a personalidade de Neo, além de um herói duvidoso impulsionado pela exposição de outros personagens? O que faz Neo e Trinity se apaixonarem, além de ouvirem que eles estão fadados a isso? Ainda assim, é imensurável a importância da trilogia para a história da cultura pop e para mim.

Matrix Resurrections continua com a mesma tradição de sua trilogia original, entregando um exercício de  ideias intrinsecamente autoconscientes com alguns personagens com problema de tridimensionalidade, mesmo eles sendo importantes para o andamento da narrativa.

Lana Wachowski dirige sozinha Matrix desta vez, mas o roteiro foi uma colaboração dela com os roteiristas David Mitchell (Cloud Atlas) e Aleksandar Hemon (Sense8). Juntos, eles escreveram uma sequência/reinício/spinoff de Matrix. Quando Lana Wachowski reintroduz Neo como um designer de videogame que, mais uma vez se chama Thomas Anderson, criador de uma série de jogos de sucesso The Matrix, ela estabelece uma versão meta-infundida de suas próprias experiências dentro de reuniões onde os executivos da Warner Bros contam que ela precisa fazer uma sequência da franquia ou eles vão contratar outra pessoa. E isso foi real.

Em Matrix Resurrections nosso herói Neo é um cara com problemas graves de ansiedade e depressão, vive dopado de remédios. É cercado o dia todo pelo seu assistente Jude (Andrew Lewis Caldwell), eles precisavam entregar uma nova sequência de The Matrix. Jude é a pessoa que acredita ainda no apelo original do jogo – seus temas de livre arbítrio contra destino, política trans, dogma capitalista e teoria da simulação. Mas acima de tudo, Jude quer ver e entender  “o bullet time”. 

Para quem achou essa parte do filme cansativa ou não entendeu, Lana Wachowski estava fazendo uma crítica pesada contra a Warner Bros.

A nova trama de The Matrix Resurrections envolve um grupo revolucionário pela liberdade humana, liderados por Bugs (Jessica Henwick), que descobre que os robôs mantiveram secretamente Neo e Trinity (Carrie-Ann Moss) vivos. Nas cenas de abertura, Bugs entra em um modal – um jogo Matrix dentro de uma Matrix maior – para encontrar uma versão de jogo de Morpheus (Yahya Abdul-Mateen II) que alcançou a consciência e entendeu que ele era apenas um programa. Acontece que os programas de computador podem agora desenvolver uma consciência que pode ser libertada da simulação da Matrix e entrar no mundo pós-apocalíptico real em corpos robóticos. 

Os humanos agora conseguem libertar programas, chamados Sencientes, da Matrix e convivem com eles em harmonia. Na verdade, esta não é mais uma história sobre toda a humanidade guerreando contra todos os robôs; trata-se de avaliar indivíduos e perceber que o mundo não é tão binário. Naturalmente, o tema dá lugar a comentários quase sub textuais sobre identidades transgêneros e fluidas.

The Matrix Resurrections se diverte estabelecendo o lugar de Neo na nova Matrix como um designer de jogo insatisfeito, e há muito alívio cômico construído em torno de seu personagem mentalmente desequilibrado por causa da utilização massiva de pílulas azuis. O filme é mais divertido do que seus antecessores, permitindo muitos easter eggs da trilogia original. Mas isso vem com uma dependência excessiva de flashbacks e cenas da trilogia original para quem nunca assistiu, principalmente quando o jogo The Matrix era falado.

Ainda assim, a dependência do filme do que veio antes leva a muitas revisões: enquanto as Wachowskis ajudaram a popularizar os conceitos  cyberpunk e o potencial crescente da internet com seu original de 1999, o mundo desde então os alcançou. Acessar o Matrix não é mais encontrar um telefone fixo – um conceito quase estranho para os telespectadores mais jovens de hoje – o lance agora é se mover através de espelhos. O arqui-inimigo de Neo, Agente Smith, aparece em uma nova “pele”, interpretada por Jonathan Groff. E embora quase não haja necessidade de explicar por que, exceto os Sencientes têm pensamentos e desejos de mudar sua aparência também, podemos nos perguntar por que a versão de Groff parece Smith apenas no nome – o personagem age de forma mais caricatural e amigável aqui do que a versão zombeteira e insidiosa de Hugo Weaving.

Infelizmente, a forma como o filme gira em direção à autoconsciência e à ironia leva a outras escolhas que poderiam ser diferentes. Por exemplo, o Analista (Neil Patrick Harris), a inteligência artificial que optou por manter Neo e Trinity vivos. Ou quando Trinity eventualmente desenvolve os mesmos poderes que Neo já teve, é menos justificado dentro da mecânica da história do que a atmosfera extratextual da política de gênero feminista em que Lana Wachowski fez o filme. A noção de dar o poder a Trinity é inspirada nisso, mas a lógica da história na tela que facilita seus comentários modernos parece forçada. Trinity surge com esses poderes porque os cineastas querem, mas a mecânica da história não justifica o desenvolvimento. Esse foi um problema ruim de engolir.

O roteiro apresenta os mesmos problemas de Reloaded e Revolutions, ele sempre inclui diálogos profundos entre cenas de ação. Mas onde as outras sequências apresentam cenas memoráveis ​​e alucinantes – como uma impressionante perseguição em uma rodovia ou um ataque de robôs em uma fortaleza subterrânea. Em vez disso, as sequências de ação parecem travadas pelo editor Joseph Jett Sally.

Por exemplo, uma cena de trem onde os protagonistas são atacados por agentes parece montada às pressas e resulta numa confusão visual. Da mesma forma, as sequências de artes marciais parecem inclusões obrigatórias, mas sem aquele impacto que os filmes anteriores tinham. E com Reeves mais velho e um pouco mais rígido, suas cenas de ação se limitaram a Neo usando suas mãos e atacando os oponentes com seus poderes mentais. Quanto ao “Bullet Time”,  The Matrix Resurrections utiliza a tecnologia em tradução livre “câmera lenta borrada” que permite que um vilão se mova ainda mais rápido que o próprio conceito de “Bullet Time”. 

Eu assisti um filme de uma diretora que não estava feliz fazendo aquilo, mas que tenta de todas as formas respeitar a essência que ela própria criou. The Matrix Resurrections é sobre como o mundo mudou para pior desde os filmes originais. “Matrix venceu”, alguém fala isso nos diálogos, e a noção de “verdade” foi usada como arma contra as pessoas. Apesar da advertência do filme original em 1999, no alvorecer da Era Digital, as pessoas não só migraram para a Internet como se ela fosse o próprio Deus vivo, mas também criaram subcomunidades e bolhas ideológicas que difundem suas próprias regras para a realidade.

 As ficções têm precedência em nossas vidas porque parecem reais, e continuamos a construí-las sem um pensamento crítico porque parecem seguras e adequadas. A internet é um espaço onde todo resultado de pesquisa foi otimizado para validar suas opiniões, por mais absurdas que sejam, e onde seus favoritos representam seu universo virtual. Na nova Matrix, os Agentes não aparecem mais como se trabalhassem para o Serviço Secreto; agora, eles podem se parecer com qualquer pessoa – seus amigos e vizinhos. Portanto, tome cuidado! E mesmo enquanto Resurrections lamenta algumas das formas como nosso mundo evoluiu nas últimas duas décadas, desde que os espectadores viram Neo e sua equipe de revolucionários pela última vez, ele celebra outros desenvolvimentos de uma forma que parece pessoal para Lana Wachowski e a comunidade trans. Mas isso é apenas uma leitura pessoal.

O apelo desta franquia sempre foi o uso de motivos narrativos tradicionais que suscitam inúmeras interpretações alegóricas, levando a extensos ensaios e livros escritos sobre sua abordagem pop-filosófica. Usar o conceito ressurreição não foi por acaso. No entanto, é menos coeso do que seus antecessores em termos formais, mesmo que Wachowski e seus co-escritores injetem uma fonte de ideias intrigantes. O metanismo do filme sobre os filmes anteriores e como o mundo respondeu a eles, junto com seu comentário sobre a banalidade da propriedade intelectual explorável, rendeu à nova sequência muitos pontos positivos de autoconsciência. Eu adorei isso. Mas o filme vacila por causa da falta de cenas de ação memoráveis ​(o requisito mínimo de qualquer filme Matrix) e, pior, personagens que se sentem como meros avatares das ideias dos escritores e observações sobre o nosso mundo que os seres humanos motivaram por emoções. Sou grato que Lana Wachowski retornar para essa franquia, eu adorei o filme, mas parece que o resto do mundo não sentiu a mesma coisa.

PikachuSama
Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.