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HERÓI DE CAPA É PARA CRIANÇA SIM

Um tempo atrás, o ator Vincent Cassel disse que filmes da Marvel e da DC são para crianças. A declaração, que foi considerada polêmica na época, me refrescou a memória sobre o quanto alguns fãs adultos de gibis e afins podem não aceitar que isso é verdade, pelo menos em partes. Isso não significa que adultos estão proibidos de gostar de quadrinhos e assistir filmes do gênero, entretanto, o simples fato de esses filmes serem feitos também para vender brinquedos é o suficiente para confirmar a declaração e nos fazer perceber que as crianças são sim historicamente o público-alvo dos super-heróis (ou pelo menos uma porção significativa dele).

O problema é que muita gente confunde “ser feito para criança” com “ser superficial demais para adultos” e vemos então pessoas supostamente maduras saindo em defesa da inclusão de temas cada vez mais exclusivamente adultos nas histórias de heróis, como se estivessem brincando de futebol e de repente quisessem levar a bola embora para as outras crianças não jogarem.

Super heróis sempre enfrentaram dificuldades da vida cotidiana, inclusive o destaque a elas foi o que popularizou a Marvel nos anos 60. Homem de Ferro é um exemplo disso: gênio desde criança, se tornou uma das maiores mentes científicas do mundo, grande empresário e dono de um super carisma, o que não o livrou de lidar com o alcoolismo e com as consequências das suas irresponsabilidades, tudo isso enquanto pilota uma armadura capaz de destruir cidades completas. Já o Hulk é um homem comum que tem problemas para se controlar diante da raiva. Ele nunca foi mostrado de fato como super-herói, afinal uma criatura totalmente sem controle destruindo cidades por aí já é autoexplicativo. Para uma criança, no entanto, ver o frágil Bruce Banner se tornar o indestrutível Gigante Esmeralda, a partir de uma dificuldade pessoal que enfrenta, pode ser inspirador.

Saber que todos esses super seres têm problemas semelhantes aos nossos torna tudo mais humano. A questão é que, para boa parte dos fãs adultos, esses problemas deveriam ser o único foco ou, pior ainda, que as falhas de caráter dos heróis devem ter o protagonismo, mesmo que para isso se deturpe um herói.

Vejam o caso do Superman: sempre foi emocionante acompanhar o último filho de Kripton que, na Terra, encontra um lar e, mesmo sendo praticamente um deus, encarna o conceito de altruísmo e usa seus poderes para proteger o planeta de ameaças internas e externas. Aliás, Superman continua assim para mim até hoje: completamente bom. Não tem meio termo. Ainda vejo ele como o exemplo de adulto a ser seguido. O problema aqui foi que, embora nas HQs, o Superman seja meio que um “Jesus Cristo”, a versão que se popularizou nos cinemas recentemente é a do Zack Snyder. Nessa versão, o Superman entra numa luta contra outros kriptonianos, resultando na total destruição de Metrópolis. Uma adultização bem ruim de algo que era muito bom quando era “para crianças”. Lógico que qualquer adulto se sentiria aterrorizado com um ser desses e buscaria quaisquer meios para contê-lo, ou seja, Lex Luthor está correto. Como disse Barão Acton, “O poder absoluto corrompe absolutamente”.

A sanha por tornar o Superman mais brutal e violento tira o lado inspirador e divertido para leitores mais jovens. E isso não tem necessidade nenhuma de ser feito. Já existe o Batman para atender ao desejo de violência gratuita. Quando criança, por exemplo, eu enxergava no Batman um simples humano, que, mesmo sem poderes especiais, treina mente e corpo em níveis absurdos para proteger a cidade dos vilões e ainda consegue ser um dos maiores membros da Liga da Justiça. Agora, quando penso sobre a trajetória do herói, vejo em destaque o Bruce Wayne, uma criança traumatizada, que nunca superou a morte violenta dos pais e aparentemente nunca se tratou, mesmo sendo bilionário.

Para alguém que se considera o salvador da cidade, ele está mais para um hipócrita, já que o dinheiro que possui poderia ser investido em serviços sociais, moradia, empregos e outros benefícios para a população de Gotham. Em vez disso, prefere investir em tecnologia de vigilância e equipamentos especiais para sair metendo porrada em bandido nas ruas. Soa bem familiar, não? Para agravar ainda mais o problema, ele tem costume de recrutar crianças para esse mesmo tipo de vida, o que, consequentemente, pode causar a morte delas, como no caso do Jason Todd. Aliás, é importante dizer que nem mesmo esse fato não o impediu de recrutar novas crianças e formar uma milícia de adolescentes em “Dark Knight Returns”.

O problema então não é ser um adulto que gosta de coisa feita pra crianças. A questão é excluir as crianças daquilo que foi feito para elas. Como leitor e colecionador de quadrinhos desde que me entendo por gente, já que minha mãe e meus primos mais velhos eram leitores antes de eu nascer e me mostraram esse mundo desde cedo, posso afirmar que, cada vez que releio um gibi, percebo um detalhe novo, me aprofundo mais em algumas questões que antes não percebia e cada vez mais consigo tirar lições para a minha vida de adulto. O gibi é o mesmo, não foi preciso que ele mudasse. Quem mudou fui eu, que agora consigo, sendo adulto, ler os gibis que lia na infância com outro olhar, o que me leva a gostar ainda mais por ver novas camadas ou simplesmente perceber que aquilo era de péssimo gosto.

Weverson de Oliveira
Um leitor de gibi idoso. Editor do QuintaCast.